sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A minha vida

A minha vida é um minúsculo e mínimo ponto-de-vista,
envolta da qual se divisam as correntezas magníficas e eternas,
a que eu, sozinho, nunca serei capaz de bem compreender,
e mediante as quais todas elas se retroalimentam
e se retrodestroem, com uma capacidade infinita e acelerada
de criação mesclada com mortificação redentória.
Da humanidade criar a bomba atômica e tudo destruir
é só um mínimo passo mínimo de tempo geológico,
condição segundo a qual tudo ocorre
sem que tenhamos domínio algum nenhum
por sobre cada um de nossos fados
por sobre cada um de nossos olvidos;
tudo convergindo em catástrofe
e tudo convergindo em olvido de catástrofe,
num ciclo peremptório a que nós seres humanos
só muito ilusóriamente
pensamos que temos algum domínio sobre;
pois que, se é certo que há tempos de ampla virtude,
também não é menos certo que destes se seguem
tempos execráveis de explosão impassível
de tudo quanto tentamos sempre inutilmente afogar.
A minha vida nada representa
não porque eu nada seja em um meio intelectual reconhecido,
ou porque eu pouco dinheiro ou reputação social tenha,
porquanto que tudo isso não passam de frivolidades de alma.
A minha vida nada representa, em verdade,
porque por mais que vejamos um translúdico céu ensolarado,
se pensarmos a bem a fundo por detrás desta epifania,
se me restaria apenas um universo negro prenhe de estrelas,
em cujo lugar, se eu até lá chegasse por algum acaso qualquer,
seria eu tão parvo e insignificante quanto o mais néscio dos homens.
Quanto mais e mais eu escrevo sobre o que eu penso e sou,
tanto mais e mais eu limito a vida inteira numa caixola sem alma.
Quanto menos de mim houver em tudo quanto escrevo;
e quanto mais houver de vozes infindas e transitórias;
uns se sobrepondo a outros que nem pisássemos
em formigas ligeiras que correm atrás de seus alimentos;
quanto mais humilhações houver de uns sobre outros;
nada fazendo sentido com tudo fazendo sentido;
cada qual a vomitar com nojo por sobre o inimigo;
e o inimigo de todos sendo também os todos enfim;
quanto mais hiperbólico for esse assistema;
quanto menos de mim houver nessa pluripartição de realidade;
quanto menos eu acumular de amor-próprio e de defesa de ego;
tanto mais se servirá, como numa sucessão de eventos sem-nexo,
a arte, a compor satisfatoriamente o que seria a minha vida.
Um lugar, enfim, onde ela, a vida, não tem espaço, ou porque
o universo espaço-temporal lhe esgoele e lhe esmague em demasiado,
ou porque a multiplicação de tantos outros eus lhe torture e lhe retalhe
como que num porão hiper-lotado onde nos faltasse ar.
O que é a minha vida? o que são as nossas vidas?
A resposta só me viria por contraposição ao que ela não é,
ao tudo que contra ela se lhe repercute em sonoridade latente,
visto que uma definição de dentro para fora só lho embairia.
O que é a minha vida? eu não sei, pouco isto me importa,
e não sou eu de verdade quem escrevo em quando escrevo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Uma tarde num café

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

Eu abro livros que me interessam.
Percorro livrarias que me interessam.
Converso com pessoas que me interessam.

E a cada interessar-me distinto reitero
um desinteresse muito maior
por uma quantidade muito maior de livros;
uma recusa completa de pessoas e de livrarias;
um virar-as-costas absoluto contra uma multidão.

Afinal de contas,
ao se me imiscuir tão completamente por autores literários,
quantas situações e ambientes existenciais
eu os não deixo desapercebidos por aí?

Passo, por exemplo, nove horas num café lendo tranquilo,
relanceio dois ou três olhares para as atendentes,
e de tão empolgado que me mantenho com o livro,
não percebo em absoluto o mau humor de uma funcionária.

Eu me importo para com ela?
É óbvio que não; me importaria só em kantianamente,
ou falsa e abstratamente como o fazem sempre
os poetas líricos e os religiosos.

Mas eu fico curioso em saber qual o julgamento dela
a respeito de tudo aquilo: os clientes ricos,
os agradecimentos falsos, os olhares de desdém
a ela voltados, o fingimento da sua não-existência,
o dever que ela possui de tratá-los bem,
ao contrário do qual receberia uma chamada de atenção
ou mesmo um xingamento perverso de um cliente,
e os todos muito-obrigados ditos robóticamente.

Eu peço um capuccino pequeno e um pão-de-queijo.
Ela me vem e me traz tudo às exímias perfeições.
Um pão-de-queijo quentinho esquentado na hora,
e um capuccino cremoso com um desenhinho em cima,
talvez um desenho de uma flor viçosa e transparente.

Eu lhe agradeço em bom tom
e lhe faço um leve sinal com a cabeça.
Ela me não diz nada, nem mesmo me olha,
e vai-se embora.

Por que coisas passou ela naquele dia?
Por que coisas passou ela em sua inteira vida?
Qual é o tamanho de seu ódio por todos os clientes?
Quanto já não sofreu em vida para estar ali?
Já teve namorados?, já amou?, ou mesmo
fez já algo que lhe gratificou de um tanto a existência?

Os clientes vêm todos em grupos,
se sentam em duas a cinco pessoas,
se riem e se gargalham entre si,
falam mal de um tanto de gente,
se sentem libertos por poderem finalmente
ser sinceros com alguém em vida,
fazem confissões boas ou más,
se divertem uns com os outros aos bocados.

As garçonetes lhes trazem os lanches e os cafés,
eles agradecem sem perceber que agradecem,
eles comem sem perceber que comem,
pagam a conta e vão-se embora.

O que é toda aquela conversa sobre arte,
sobre política, sobre literatura e sobre fofocas
para aquela funcionária de mau humor?

Ela os olha como se olhasse para uma parede,
esperando tediosamente que alguém lhe acene
para que possa atendê-lo ligeira,
ou esperando também a hora de ir-se embora.

O muro que se ergue entre clientes e funcionárias
é ali de um volume tão grande quanto invisível.
Gritasse a funcionária um pouco mais alto em rebelião,
e este muro lhe cairia em cima tão pesado quanto invisível.

Os clientes muito provavelmente se sentem satisfeitos.
Se orgulham, por exemplo, de terem nascido
em época de tantos direitos conquistados,
de tantas tecnologias engendradas,
chegando mesmo a algum tipo de inteligência artificial,
e assim permanecem convictos da beleza de sua era.

Eu continuo a ler.
Eu continuo a observar as pessoas.
Eu continuo a observar aquela funcionária.

Mas, de repente, eu sinto vergonha.
Eu sinto vergonha, de repente. Uma espécie inaudita
de asco e nojo por mim mesmo. De repulsa mesma
pela funcionária e pelos clientes, pelo pão-de-queijo,
pelo meu livro, e pelo capuccino; tudo o qual
se me revira com um gosto amargo em minha boca.

Eu sinto vergonha de tudo e de todos,
e me pergunto pelo porquê de eu estar lendo aquele livro
em sendo que o mundo de todas aquelas pessoas naquele café
permanecem-me tão incógnitos quanto já o era
antes mesmo de eu aprender a ler.

A pergunta de sempre me repassa pela cabeça
mais uma vez, dentre tantas outras vezes
que já passaram e que ainda estão por passar:
pois que conheço eu, de fato, aquelas pessoas?

Será que tudo isso o que eu descrevi
não seria apenas uma formulação do que eu penso
que vejo, um conjunto inerte de tudo quanto eu sei
a respeito do mundo e de mim mesmo,
e que eu mesmo projeto nas pessoas?

O poeta, ao descrever as pessoas,
não estaria por si só incorrendo ao erro
de descrever apenas a si mesmo
ou apenas as suas inúteis ideias?,
se tornando o descrever de si mesmo
não tanto um atestado reprovável de egolatria
quanto uma mera e pura sinceridade
de escrever só mesmo sobre o que sabe de fato?

Ou o mesmo com a Natureza.
Em se a fazendo descrita, quem ele descreve
a não ser a si mesmo projetado na Natureza?

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

A funcionária, afinal, não gosta de seu trabalho.
Queria ela estar em outro trabalho, mas ocorre que,
devido às suas condições, não lhe restou tanta opção.
Só faz ela o que lhe pedem no serviço,
o que é o necessário para o seu sustento.
A sua relação com os clientes é feita
somente no âmbito profissional, pois que é só isso
o que lhe compete, e isto ela faz
de modo um tanto eficiente e preciso.
Infelizmente, ela se separou do marido,
e eles vivem em brigas judiciais por motivo
dos filhos, os quais lhes preocupam
pois pouco tempo possuem para educá-los,
e é um e outro brigando todos os dias
pela custódia deles.
Como poderia ela sorrir feliz ainda,
com os seus tantos problemas financeiros de dívidas
a pagar? A sua mente se abastece de problemas.
Tantos problemas quanto se é possível imaginar.

E os clientes ali só querem falar a respeito
do assunto que tanto lhes apraz: o cinema.
Saiu um filme novo, e eles acabaram de o assistir,
e querem debater sobre o assunto de maneira descontraída.
Porquanto que passaram a semana também com problemas,
muito atarefados em seus respectivos trabalhos,
além de terem tido um tanto de tarefas domésticas,
e de terem brigado com as suas respectivas esposas,
como sempre por causa de questões ínfimas.
Para que diabos, portanto, iriam se preocupar
com a mulher que lhes serve o café, em sendo
que tantas e infinitas questões lhes passam de por-já
pelas suas mentes no mais comum e ordinário dos dias?
O que se ganha em se prestando uma mínima atenção
a uma pessoa totalmente desconhecida
que me serve o café e o pão-de-queijo
numa tarde em que almejo só mesmo é me divertir?

E ainda, aquele jovem ali de uns vinte anos,
que tanto gosta de estudar, e que passou
umas nove horas diretas aqui lendo Proust.
Sim, ele!, por que diabos ele não cala a boca,
lê o seu livro na sua, e simplesmente
não se vai embora sem ficar nos analisando,
achando muito ingenuamente
que sabe alguma coisa a nosso respeito,
sendo que sabe é coisa nenhuma de nada?!

Oh!, valha-me Deus por esta espécie de homens
chamados homens das letras! Malditos...
Quando é que eles extinguir-se-ão afinal?!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O cortejo

     Foi preciso uma boa dose de coragem para que João se prorrompesse instantaneamente ao lado de Vitória. Aquele dia lhe causara um não sei quê de percalços e estorvos daninhos os quais, por mais bela que se achasse a existência sua num aorredor aconchegante de umas trinta a cinquenta pessoas naquela festa, mais lhe dava a impressão de estar absolutamente só consigo mesmo do que realmente conectado com aquela balbúrdia de crianças jovens adultos e velhos, todos alegres e muito meio bobos. Pois, ainda que conversassem sobre um sem-número de aventuras que se lhes engrandeciam aos olhos dos demais sobremaneira, João sabia em seu mais fundo íntimo que tudo aquilo transbordava mais de mentira que de verdade, e que, se porventura verdade pérfida e horrorosa havia ali escondida alegre e saltitante, a mentira logo-logo a relevava, tornando o pecado uma coisa menor, como de fato sempre o é em quando se encontramos com gente que a respeito dele nada mais acha senão pilhéria moral. Afinal de contas, cada agrupamento humano possui ao redor de si um núcleo de premissas a partir das quais se rege a moral e o campo valorativo de fulcro que condicionam os troncos, as folhagens, os gerânios, as rosas purpúreas, os cálices sagrados, e até mesmo os espinhos e os venenos dessas plantas movediças e volúveis. Geralmente sempre existirão indivíduos que se encaixarão como em joguinhos de lego neste assomo de preceitos, bem-amente como ocorre com os meninos e com as meninas solteiros e solteiras, em cujas ânsias e expectativas de se arranjar um parceiro adequado se fazem de tal modo que acabam sempre encontrando de fato alguém que se lhes aconchegue bem o ninho doce do mais íntimo. Problema maior, entanto, está sempre nos quandos de cujo sujeito não se encaixa direito num determinado grupinho, e ainda assim ele se mete a tentar se encafuar ali de todo e qualquer jeito, forçando algo que deveria ser o mais absolutamente natural. A amizade, afinal, deve de ser espontânea. Assim a amizade, assim o amor, assim a vida e a morte. Felicidade forçada é um contrassenso. Amor forçado é um contrassenso. Amizade forçada é um contrassenso. Despautério maior que estes não podem nunca haver. O enigma maior que fica sempre, de resto, é saber pelo quê o nosso espírito terá o que se chama amor, felicidade e amizade; e por quanto tempo. E isto porque não é só o amor que é um pássaro rebelde, como se diz na ópera belíssima de Bizet, Carmen, mas que quase tudo o que nos circunstancia e nos circunscreve parece também se proceder como se fôssemos umas crianças boêmias, em muito incertas, sem fórmulas, sem essências, quase puras contingências, destituídas de generalização, mais próprias a voar que a se encalacrar. Mas o voo é sempre um perigo. Um arriscar-se perigosíssimo que no futuro ou seja em glória ou seja em linchamento. O passo autêntico é afinal um passo de delírio. Um passo de vertigem. Pisa-se em corda bamba e esticada sem firmeza, qualquer relance dando em morte. Todo mundo que se instala na zona de conforto observam os que tentam voar. Acham, muito ingenuamente, que voar sempre dá em bom. Sim, veem um ou dois que voaram e se glorificaram, batem mil palmas, se inspiram. Mas tudo em detrimento de outros tantos milhares que voaram e foram presos, torturados em cárcere, cegados a ponta de faca, decepados os membros, ridos qual fossem palhaços, ou esquecidos na história. E tudo unicamente porque foram sinceros demais da conta, se mostraram como não deviam se mostrar, disseram coisas que deveriam se permanecer caladas. Pois que o poeta, a partir mesmo do momento em que clareia uma região existencial específica, tal qual a morte do leiteiro em Drummond, descaracteriza assim mesmo, no simples descrever, a pior das características do acontecimento: qual seja, a de que o fato não existe em âmbito público, para quem nada disso aconteceu. No que dá no inevitável indescritível radical dessas pessoas que tentaram voar em vão. O indescritível sendo o fato disso se ter sido esquecido completamente pelas pessoas. Descrever isso é assim, por si só, um descaracterizá-lo. A contradição ocorre no momento mesmo em que se clareia o escuro, sendo este a plena escuridão. Como clarear-se-ia o escuro, afinal? O escuro é inclareável, permanece numa zona onde a literatura não alcançará um dia sequer, ficando esta aberta sempre aos que deram certo; mas os que deram certo são a exceção, e a exceção não vale a regra; um poeta poetizando um acontecimento não faz mais que transfigurar a regra em excessão, traindo-a no seu ponto mais crucial, num de seus liames mórbidos essenciais. Um ponto muito luminoso num canto não serve de nada se visto de outro ponto de vista, ou seja, se se apontar para o breu completo que se lhe rodeia. Há os que preferem olhar tudo de baixo para o cimo luminoso; eu prefiro olhar de cima para o embaixo das escadarias que não levam nunca a lugar nenhum.
     Ocorre que os leitores não sabem o porquê de eu estar escrutinando tão bem a fundo a respeito de coisas que nada têm a ver com o título e com a primeira frase deste conto, a estória de João e Vitória. Porquanto João era um jovem bem querido daquela turma, se socializava com quase todo tipo de gente, se comprazia com cada um, contando-lhes anedotas engraçadas, passando-se até mesmo por um idiota, pois que as suas piadas na maioria das vezes não possuíam tanta graça, e os outros mais estavam a rir dele-João do que propriamente de suas piadas. Era um sujeito curioso, engraçado de jeito, graciosamente inteligente e perspicaz, gostava muito de fingir-se de bobo, porque na verdade ele sabia mais que todos ali a respeito dos pormenores franzinos que se transcorriam, e apenas fingia não saber de nada. Era somente um jeito que arranjara de se divertir, o sublime estando mais na estupidez do que na lucidez. O sério para ele, afinal, mais atoleimava o sujeito que o engrandecia. Tinha dentro de si um mundo tão derruído em análises psicológicas, pensamentos reiterados, problemas, questionamentos, um caos de parte a parte, que era até estranho o ver assim tão alegre e feliz com todo mundo, se animando como se fosse uma criança totalmente ingênua e descuidada. Seria igualmente o ver Clarice Lispector se portando como se fosse uma menina bem comportada e demasiadamente feliz em alguma Santa Igreja. Que João era permanentemente zombado pelos demais ele já sabia de desde o primeiríssimo momento, e todo mundo se divertia com o fato de ele não estar sabendo minimamente do que falavam a seu respeito pelas costas. E o que ele fazia em troca era sempre se rir, se alegrar, e mais ainda se animar com tudo e com todos, como se nada estivesse acontecendo, ele não sabendo de nada, as pessoas fossem todas puras e morais. O que ele fazia? Ele mentia. O que as pessoas ao redor faziam? Elas mentiam. Quem estava de fato sendo elas mesmas ali naquela festa? Ninguém. O momento de encontro social entre amigos e colegas daquela alta sociedade era geralmente um momento de mistura líquida e vaporizada entre ficção e sinceridade, sinceridade e ficção, predominando sempre a mentira. Todo mundo se sentia sozinho ali, mas todo mundo mentia, no todo embaraçado de outras tantas almas venenosas e bonitas. Na verdade, o que explicava o fato de as pessoas ali estarem se sentindo sozinhas no meio de uma multidão era justamente o fato de que quem interagia umas com as outras não era bem elas mesmas, mas sim uma versão social delas. E assim, por mais palavrosos que fossem os papos dali, ninguém se sentia verdadeiramente abraçado por ninguém, porquanto que abraçar uma imagem não surte efeito algum para esmaecimento de solidão e abrigo de alma. Se sentir melhor que os outros não constitui se sentir aconchegado pelos outros. Admiração não é acalanto. Respeito tampouco.
     E sobre Vitória? O que se pode aventar a respeito dela? Vitória era sim uma jovem bonita e esbelta, inteligente, muito sensata e racional. Todas as suas maneiras pendiam ao equilíbrio das partes, cada seguimento de sua alma lhe refluía como que dando passagem coerente a cada um de seus humores, sendo a bem da verdade que ela quase nunca "se mostrava" verdadeiramente a ninguém. O menino que de mais longa data a conhecia, Marcos, dizia que sobre ela pouco sabia, apesar de já terem estado tanto tempo juntos e amigos. Falava que até arriscava perguntar-lhe sobre sua vida mais íntima, mas que tudo fosse em vão, que ela se utilizasse de desculpas, e que o assunto sempre se restava a problemas impessoais ou próprios de Marcos. Mas no fundo nem mesmo Vitória sabia direito por que se reservava tanto assim. Para ela que fosse o mais sábio nunca fazer confissões a ninguém, sempre se manter absolutamente direita e firme, e derivar disso uma sabedoria muito coerente com o justo meio, coisa afinal em que nenhum grande homem chegara, porque o simples fato de ser grande já deturpa o adjetivo meio. Certo dia, eu mesmo lhe viera em perto, e lhe perguntara de maneira risonha e meninosa sobre o porquê dela nunca se abrir a ninguém, pois que de tudo quanto sobre ela sabia nunca ouvira falar em livro nenhum, a literatura sempre se envaidecendo com sua falsidade sábia ou se chilreando com seus grasnidos de corvo, ao fim do quê ela se me riu bonitamente, me olhou como se eu fosse um idiota bobinho, e me perguntou: "Mas o que eu ganho com isso?". Eu me deliciei no momento com essas poucas palavras singelas. Via o grande brilho eterno de seus olhos, marejados em certa pureza, e aprendia bastante com eles. E o que ninguém suspeitava ali, por causa de seu recato bem dosado, era uma certa ferocidade de fêmea, que ela me transmitia também pelos seus olhares, juntamente com as suas maneiras, os seus decotes, as suas saias. Ela transbordava libido, e eu sentia, e eu ficava imaginando cada um de seus fetiches sexuais, me esticando ao completo ao por de-dentro em vendo os seus delineamentos recurvos femininos e flâmulos, me enamorando com aqueles medidos seios redondos tão leves e brancos quanto uma gelatinosa suculência revolta em algodão sortido de leve peso pueril. Chegava então na imaginação de sua rosa, um fruto engenhoso da primavera divina, e me entontecia em repleto com todos aqueles pergaminhos da natureza. Dádivas oferecidas pela mãe Terra a mim, que me comprazia todo só no de vê-las. E era bem estranho como eu, num repente estalado em pólvoras de marfim, me mudava os humores em trezentos e sessenta graus em sempre quando Vitória se me apresentava nas minhas sensações e memórias. Parecia até que o mundo todo ficasse subitamente mais belo, não houvesse mal algum em parte alguma da Terra, o universo fosse feito todinho para que nós o pudéssemos contemplar. Que sentimento era esse? De onde provinha tudo isso? Eu não fazia a menor ideia, mas de gostar, sim, eu gostava.
     Voltemos então ao começo da nossa narrativa. Foi preciso uma boa dose de coragem para que João se prorrompesse instantaneamente ao lado de Vitória. Por quê? Justamente porque o que ocorreria no por conseguinte daquilo tudo era um voo. Era um passo a mais numa corda bamba, em cujo liame se manter firme era tão difícil quanto entrar no meio de um batalhão de guerra, atulhado em meio a metralhadoras e dinamites. A coragem que João necessitava era enorme, e ele não queria de fato se embebedar de álcool para isso. Se limitava ele a,  no meio da grande ficção e velamento quase que completo dos desejos reais sinceros e autênticos de todos aqueles jovens, os quais muito bem tentavam se esconder de todo dos outros para se protegerem ou serem maior e falsamente engrandecidos, — se limitava ele a ir em direção à Vitória e dar-lhe um beijo, com isso abrindo-se totalmente os seus desejos sinceros mais profusos e profundos, se mostrando a ela desnudo de artimanhas de máscaras, fazendo-se cativo dela, prostrado sem nenhumas armaduras; e, diante daquela corda bamba do trapezista, cabia a João, o sumo artista, somente dois destinos possíveis, como sempre ocorre em momentos como este, em cujo quedar abala o sistema harmonioso do total social: ou lhe ocorreria a absoluta glória, ou lhe abateria a execrável modorra. Estou sendo exagerado?, pois digo que até mesmo Napoleão se abatia em suplícios diante de suas amadas. João, então, sem que ela se desse conta de que ele ali estava, a pega pelos braços, todo trêmulo e disparatado, e a beija longamente, num beijo tão forçado quanto apaixonado. Ela se paralisa por completo, fica toda retesada, não consegue abrir direito a boca, mas abre bem os olhos inquietos, e sabe que quem ali está é o João, o da faculdade, o que tanto gosta de conversar com ela a respeito de todos os assuntos eruditos e intelectuais. Ela dá um passo para trás, rápida e ligeira, e o empurra com toda força para fora de si, atônita. Seus olhos parecem querer dizer: "Mas que diabos é isso?". Eu esboço alguma resposta, mas João não consegue dizer nada. Passam-se uns quinze segundos tão lentos quanto o é o perdurar dum século. Eu engulo seco. João se aproxima um pouco, parece suplicar um beijo, um outro beijo. E algum feitiço advindo de não se sabe onde recai em costas de Vitória, transfazendo-se ela duma amiga a pretendente num estalar seco de dedos. Por quê? Como? Onde? Quando? Eu não sei, não faço eu a menor ideia. Eu lhe dou, assim, outro beijo forçado em ímpeto, desta vez muito mais feroz, rapinante e delirante. E ela se debate um pouco, mas vão se esbatendo aos pouquinhos as suas forças, rompendo os ligamentos internos, desligando os sistemas racionais e solenes de sua alma. E com um pouco de tempo vai correspondendo ao beijo de João, sentindo algo que nunca havia sentido em vida. Uma inflorescência de alguma coisa boa e bela se inflama adentro de Vitória. Ela não sabe bem o que é, mas sabe que é bom. Parece-lhe que está transcendendo toda uma camada de existência, se aproximando mais e mais de si mesma, deixando o social de lado, se afeiçoando ao autêntico de si, e se o abrindo para João, que ali repousa qual neve macia em campos de pradaria num inverno ensolarado. O romantismo lhes rapina, com voracidade tremenda, de tudo o mais. Não sabem mais ao certo em que mundo estão, e o beijo se infinitiza ao descontrolado.
     Todos ao redor da festa os olham, então, com uma cara de contrafeita, repudiando aquele beijo nojento e estúpido, tão fora do bom senso. Estão afinal em uma festa extremamente elegante, performática, culto máxime dos endinheirados da cidade. Amigos altamente quistos e famigerados. Ali se assentam predominantemente senhores e senhoras já de idade. Magnatas filantropos e intelectuais insignes. Moralistas que veem com asco a concupiscência desregrada da juventude. Pois que toda aquela cena que descrevi nos parágrafos anteriores se passara bem ali, no meio da elite intelectual e econômica de São Paulo. O que houve? Bem, uma cena esquisitíssima de cortejo, absolutamente fora de contexto, dada em desvio por causa de uma paixão em muito descontrolada e destalhada de João Becker de Freitas, um jovem estranho que possui alguns problemas psiquiátrico-psicológicos e que fora, juntamente com Vitória Weber, uma estudante de medicina da Universidade de São Paulo, expulsos da festa empresarial de Mário Watanabe, que no momento estava comemorando o aniversário de sua empresa. Diz-se que a festa continuou cheia de drinques e aperitivos, que a comida estava ótima, e que felizmente o senhor Freitas havia sido levado para bem longe dali. Que todos tiraram o maior sarro dele, isto já não é de duvidar.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Uma lição literária

Eu vejo buracos em tudo.
Pequeninos 
buraquinhos em minha pele.
Na pele das pessoas, vários buraquinhos,
encorpando o exterior de tudo.

Eles me causam um desconforto.
Um desgosto físico-sensível.
Como se a nossa natureza
nos alertasse de que nisto
se entranhar é perigoso.

Igual que víssemos
vísceras
por diretamente.

Mas eu me aproximo
cada vez mais.
E cada vez mais
me é difícil
fingi-los inexistentes.
O meu intelecto combate
o meu corpo. O meu corpo
inflige o meu intelecto.

Ninguém os vê (os buraquinhos)
a não ser que sejam treinados a tal
ou naturalmente sensíveis a isso.
Talvez seja uma mistura de ambos.
E uma vez sortidos nós
não encontramos caminhos de volta.

Aos mais sensíveis a eles,
os buraquinhos infernizam 
a vida da pessoa.
Pode ela se suicidar por isso.
Geralmente são os artistas.

E diz-se que os mais sábios
são os que os veem
e não se entristecem por isso.
Os veem com total nitidez,
enfrentam e seguem eretos!

Mas pergunto-lhe: como pode
uma pessoa ser feliz com o intelecto
tendo o sensível tão prejudicado?
Só pode mesmo isso ocorrer
se o intelecto cegar o sensível.

E ademais: em tendo o sensível tão prejudicado
como pode o intelecto
também não se entristecer?

Talvez o mais sábio então
seja esconder todos os buraquinhos,
para que o intelecto se alcance em auras plenas.
(Mas isto é exatamente o menos sábio).

E disto tem-se duas alternativas:
Ou se perscruta os buraquinhos de perto
e fatalmente o intelecto se angustia com dor.
Ou se no-los esconde com perspicácia
e o intelecto se servirá de toda a sua potência.

Do primeiro grupo temos os ácidos:
Franz Kafka, Liev Tolstói, Clarice Lispector.
Do segundo grupo temos os doces:
Rubem Alves, Manoel de Barros, Mario Quintana.

Não existe bem o certo e o errado.
O verdadeiro e o falso. O autêntico
e o inautêntico. Mas geralmente,
os dois misturados não fazem muito sentido.
E a obra sempre gira ao redor do autor.

Daí provém a repartição tão necessária
entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.
Porquanto que este duplo está presente
na verdade, é em todos nós.
Cabendo ao artista o seu foco maior
em um, ou em outro.

Pois-pois, então, uma coisa é certa:
Quer mostrar os buraquinhos nojentos?
Então não vanglorie o intelecto, o sujeito.
Quer vangloriar o intelecto?
Então não mostre os buraquinhos nojentos.

Vangloriar o intelecto, e depois
mostrar os buraquinhos nojentos
soará ironia, sarcasmo, humor.

Mostrar os buraquinhos nojentos
e depois vangloriar o intelecto
soará ingenuidade, idioteza, burrice mesma.

Pois está aí dada portanto a lição:
Nunca misture sorvete
com batata-frita. 
O sabor é horrível.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um diálogo

     A: — "Se falarmos porventura que é o Sol o cujo que rodeia a Terra: estaremos certos ou errados?"
     B: — "Sob o ponto de vista de quem? — Do universo eterno, ou da Terra transitória?"
     A: — "Da Terra transitória."
     B: — "Acho que pois, estaremos mais certos que errados."
     A: — "Mas e sob o ponto de vista do universo eterno?"
     B: — "Bem, aí estaremos certamente de todo errados."
     A: — "Mas nós não erraríamos se por acaso puséssemos o nosso ponto de vista tão perto de nós?... Quem afinal seria tão tolo de assim o proceder? Só um idiota confereria-se tão grande monta de apoio intelectual. Confiando nos próprios sentidos, confia no erro, no embuste, é certo."
     B: — "E por acaso existe prevalência infinita de um ponto sobre outro?... Há casos e ocasiões em que um se é mister falto, enquanto o outro é melhormente quisto. Mas isto vice-verseia de acordo com as contiguidades. Entende?"
     A: — "Ah!, como eu odeio este seu relativismo!"
     B: — "Cada ponto de vista é o mais próprio útil para fazer calar a boca de muitos dos demais."
     A: — "E onde afinal está o seu ponto, já que pensa que tudo são lupas e lentes?"
     B: — "Em nenhum e em todos os lugares. Tudo são pontos, aqui e ali, ali e aqui. Chamam isto correntemente de pós-modernismo, é certo. Mas os artistas, escritores, de Machado a Shakespeare, de Tchekhov a Dostoiévski. Se por acaso eles fossem mais filósofos que artistas, ou seja, mais dogmáticos que relativistas; se acaso assim o fossem maiormente, seriam muito menos apreciáveis, eu lhe asseguro. Se o filósofo entra muito em cena na literatura e rapina os pontos de vista diversos ao que lhe tange, destrói e corrói a arte, acaba com as perguntas, inflama somente umas poucas respostas inertes, toscas. Nunca é tempo de acabar com as perguntas. Sempre elas se renovam em desdita ao descontrole."
     A: — "Tu és um tolo! Nunca chegarás a lugar nenhum assim. Perderás tudo em vida, porque afinal não conseguirás te firmares em nada, em nenhum ideal, em nenhuma ideia, em nada, em nada!, nem mesmo em uma única mulher. Largarás mulheres como se fossem velas que se apagam suavemente. E voarás!, — é certo. Mas voarás sempre sozinho, solitário. Um idiota, você... sim, certamente um egoísta."
     B: — "Os metafísicos afinal não seriam egoístas por fado próprio? Em se não vivendo direito no mundo, veem este por cima. Mas para tal, precisam se lhe apartar bruscamente. Assim ocorre com eles mais que comumente."
     A: — "E tudo isso pra quê, afinal? Qual o seu grande objetivo disso?"
     B: — "Bem, isto certamente pós-modernismo não é. Pois do contrário teríamos que chamar muitos escritores de antanho de pós-modernistas. Talvez isso seja uma espécie de doença, e só. Uma chaga do intelecto que pulsilanimiza um pobre qualquer, deixando-o tão tosco e idiota quanto uma criança. O objetivo? Talvez seja o mesmo que o que te faças perseguir tanto o dinheiro."
     A: — "E você está pronto para enfrentar o dessossego que esta vida lhe proporcionará?"
     B: — "Certamente que não. A única coisa importante que eu aprendi com os meus estudos foi não calar a boca de ninguém. Foi ouvir em silêncio todos os pontos de vista das pessoas. Tentá-los fazer sentido a mim. Ainda que me façam pelo mais estúpido e ordinário dos homens, eu ouço e acho belo e incrível, e me satisfaço mesmo de ver um ponto de vista que me vitupera violentamente, cujo raciocínio está tão próprio à engrenagem geral e vindoura das coisas todas. Ao que deu absolutamente certo. Minha cabeça é hoje uma mixórdia versicolor de pontos de vista. Concordo com todos e com nenhum ao mesmo tempo. Sou uma árvore retorcida elevada à nonagésima potência."
     A: — "Estás é louco..."
     B: — "Não sei. Pode ser que eu esteja apenas mais próximo de alguma espécie de verdade a que muitos desconhecem e temem. Pode ser também que eu seja somente um imbecil."
     A: — "Para mim é só uma pura loucura, é uma só grande imbecilidade."
     B: — "Eu sei. Eu concordo, — plenamente... Tu estás de todo correto. Mas, no entanto. Nunca recrimine alguém por dizer simplesmente que o Sol é o astro que circunvaga a Terra. Talvez ele não esteja assim tão errado, de alguma maneira não. Ou, que seja!, lhe recrimine por isso, pois isto não passa de um corrimento natural dos dias, frivolidades corriqueiras e efêmeras, chamas que se acendem e se apagam."
     A: — "Oh!, estas suas conversas me aborrecem, porque não chegamos nunca a lugar nenhum, e você só me bagunça a cabeça gratuitamente. Além de que me falas como se fosses um sábio!"
     B: — "Sim, sim. Às vezes a solução é unicamente o calar a boca das pessoas... Cale-me a boca. É o mais coerente a se fazer... Eu sozinho não tenho forças a me fazer calar em todos os momentos, mas isto faz parte de uma natureza minha menos virtuosa. O único momento no qual quero realmente falar, é o neste mesmo, em cujos segundos estou escrevendo sozinho, mãos no teclado, sons de violino e de piano a encher o escritório. Só quero falar mesmo é enquanto escrevo. De resto, tudo me é inútil. Debates sem fim e permeadouros, oh!, como isso tudo me aborrece! Quero é brincar. Ser criança novamente. Se eu pudesse, escolheria ser um cachorro de estimação..."

sábado, 23 de setembro de 2017

O verbo

     No princípio era o verbo. Depois foram vindo outros. Mais e mais. Verbos vindouros, vindouros verbos. E era verbo aqui, verbo acolá, verbo pra cá, verbo pra lá. Todos em presente contínuo; fluidos, dispersos, desatados em rios e mares, durantes segundos. Espocando igual pipoca no microondas. Eram estouros. Estouros que gritavam e espargiam em brasa. Um fogaréu imenso que principiasse num riscar de fósforos. A cada verbo que se desafogava prenhe, era uma iluminação a mais para os outros. Uma nesga de aurora rangendo os dentes, crispando-se em borbotões de ferro, a desalinho total das excrescências. O verbo projetava o ser humano. Ao menos era assim o que me parecia. Porque sem ele, o verbo, iluminação nenhuma não havia. O mundo sem o verbo seria igual o mundo sem o tempo. A vida se dava era com os verbos. Só com eles, e mais nada. Quais verbos? Eu não sei. Os verbos são tantos, e tão infinitos, e tão infinitamente infinitos, que qualquer necessidade que sobrevier de chofre os podem fazer respirar pela primeiríssima vez. E acabou-se que mais parecia que o princípio era não só o começo, mas também o meio, e também o fim. Pois se no princípio era o verbo, no meio era o verbo, no fim era o verbo. Tudo era o verbo. Que tudo seria explosão impassível de verbos, como se eles imperassem por sobre tudo o mais. Que os seres humanos implorassem, a toda hora, que esses verbos permanecessem intactos, inatos, irredutíveis, indecomponíveis. Uma concha que resguardasse o cerne deles mesmos. Mas que tudo fosse em vão. Que o encastelamento eternôso feito pelos filósofos e pelos poetas fosse apenas a imaginação do encastelamento eternôso. A imagem criada para os outros. E que esta explosão fosse tão eterna quanto efêmera. 
     A eternidade, diz-se, durava segundos. Após os quais vinham mais outros verbos, em cujo meio nenhum era mais importante que o outro. E, ai de mim, como isto irritava os homens profundamente! Eles queriam, de todos os modos, que um verbo fosse maior que o outro. Que um verbo fosse, como diz eles em linguagem difícil, essência, e o resto, aparência. Se irritavam com a maior das brutalidades. Numa verve mais poderosa que a dos artistas. E ao que eu podia perceber, quando uns se apegavam ao demasiado de um verbo, em detrimento de outros verbos, os homens nunca se entendiam, achando que o seu verbo era mais primoroso e mais válido de consideração do que todos os demais. Até mesmo se reuniam em pequenos ou grandes grupos, a vangloriar determinado verbo, maldizendo um verbo contrário. Se sentiam mais poderosos até. Diziam que tinham encostado na essência das coisas, que tinham saído da caverna. E que por isto ninguém precisava mais dos verbos. Mas viessem os verbos porventura a contradizê-los, e eles se irritavam, se enfureciam, se diziam superiores, se pensavam preponderantes a tudo o mais, e viravam as costas. Isto sem falar dos verbos que se prendiam ao indíviduo para todo o sempre. Verbos perigosíssimos, que passavam, aos olhos dos outros, por essências, servindo de desmentir todos os demais que viessem à tona, apodados por aparências. Ou seja, era um verbo que definia o sujeito, ficando ele preso nas peias do mesmo, acorrentado visceralmente de corpo e alma naquilo. Tentasse ele se desfazer, e a realidade embrutecia ainda mais o verbo, tacanhando-lhe em sujeição de escravo.
     Mas, de tudo quanto por hora escrevi, o que mais me levanta os ânimos do intelecto é isto: e se de fato não houver algum algo por detrás destes míseros verbos? Pergunta que não serve para nada, em prático, e que como objeto de zombaria transborda pelos dia-a-dia. Diz-se que isto é inútil. Eu entendo, compreendo as razões, não falo nada. Mas é a pergunta que faz-me levantar todos os dias. É a pergunta única que serviu de alicerce para a vida de muitos senhores e senhoras, habituados estes a uma vida mental desproporcionalmente grandiosa em comparamento com a vida prática e efetiva. É a pergunta que vacila feito vela sozinha por dentre os dedilhados de todos os verbos do passado do presente e do futuro. Que nunca, aliás, terá uma resposta certa...
     Ouço o barulho fino e surdo do laptop se esquentando comigo escrevendo nele. Ouço um som de saxofone lá dentro da noite familiarizando-a com um ar romântico, decerto pares de casais se entreolhando enamorados, risonhos. Ouço os pedestres e os carros contínuos na rua. Uns latidos a mais querendo brincar. Polícia lá no fundo negrumado de sangue e dor. Risadas altas soltas em rodas de conversas entre amigos, momento sem pecado, lírico e singelo. Eu engulo seco um resquício de líquido dentro da minha boca. Os verbos estão em polvorosa ao redor de mim, gritando feito desesperados, iluminando cada pedaço de mundo. A minha cabeça parece querer explodir de tanta potência mental me esgoelando a garganta. Eu suspiro fundo. Mulheres batem à minha porta; eu não abro. Pego um livro, abro, e começo a ler feito um louco... Mas e se nem mesmo os verbos existissem? E se eles forem só mesmo pura imaginação nossa, um tatear às cegas, um delírio tosco da razão? Valeria mais a pena abrir o quê afinal: o livro, ou a porta?... Os verbos me fazem cativo. Eu sempre à busca deles me volto, e são eles que sempre me domam por cima. Uma ironia que me dilacera por dentro dolorosamente.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Lili

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Conta-se que Lili só sorria, que se comprazia com J. Pinto Fernandes
mais do que ninguém, e que o casamento
dava era só mesmo felicidade paz filhos e netos.

Mas o que ninguém entendeu foi o porém.

Que Lili, certo dia, um milagre, esfaqueou J. Pinto Fernandes
numa madrugada de réveillon, sem quê nem para quê.
Perguntavam, e ela sorria. Um pouco apática, mas sorria.
Perguntavam mais, ela dizia que não sabia.
Entrava em cólera por dois minutos, gargalhava por mais três.
Às vezes até chorava, se humilhava diante da mídia.
Mas de saber mesmo ela mesma não sabia.
Jogaram então ela na prisão. Ela não entendeu.

Diz-se mesmo que até ali ela nunca havia amado ninguém.
E quanto ao fato, ninguém: nem os psicólogos,
nem os médicos, nem ninguém. Ninguém sabia de nada.
Criam palavras, conceitos, definições, é certo,
mas nada disso explica nada de nada.
E se Lili troçou de alguma coisa até hoje,
foi de quando puseram pronome de psicopata nela.
Ela não entendeu, mas a população inteira entendeu.
Tudo estava explicado, a miúdos, todo mundo havia entendido.
Menos ela, Lili, que tomou exemplo de Joaquim
e se suicidou quinze dias após a morte de J. Pinto Fernandes.

domingo, 17 de setembro de 2017

O riso

     Não se sabe qual foi o riso que primeiro se deu. Não se sabe também se foi um riso mesmo, ou se foi uma gargalhada, ou se foi apenas uma breve inclinada no canto da boca,  um desses risos leves que não se querem à mostra, olhos que sorriem singelos, orgulhosos. Também não se sabe quem veio primeiro: se o riso ou a boca do riso, ou ainda o homem da boca do riso. Pois pode até ser que o riso tenha vindo antes do homem. Tudo o que se sabe, no entanto, foi que o primeiro riso se deu. Mas não era qualquer riso. Era um riso de mofa. Um riso de desprezo. Um riso educado, que substitui a sinceridade, mas que possui uma violência mais impactante do que uma punhalada. Desferido no inimigo, ele encalca um ferro na consciência, deturpa os humores, ressalta a angústia do mais fundo do ser. Desentranha de nós uma espécie de verdade que poucos são capazes de verdadeiramente suportar. O coração dói, mas não fisicamente, tão-só representa um desconforto moral. Uma picada doída no espírito, como se uma cobra imensa o estivesse sufocando. A pessoa, quando vê o riso, — se é que é párea para entrar em contato direto com ele, tamanha a sua força e vivacidade, — só é capaz de pensar em uma coisa possível: o suicídio. E isto porque, não importa a circunstância, — se ele, o riso, se mostra à tona, nada na vida faz mais sentido. Tudo se torna uma única coisa uniforme, desprezível, e o pouco que há de solução é cobri-lo com um véu espesso, tão grosso quanto se é necessário para deixar o riso bem lá no fundo do ser. O riso então, como tudo o que se afoga, tentará subir violentamente, como se prestes a morrer sufocado estivesse, mas que nunca morresse de fato, sem antes com isso levar a pessoa que o carrega. Você tenta deixá-lo lá no fundo com os dois pés encalcados, para matá-lo de vez, mas aquela energia não se esvoaça enquanto você mesmo estiver respirando. Ou seja,  enquanto você não se afogar junto com ele, ele não deixará de o importunar.
     Você então descobre uma saída. Já que o riso não te larga o pé, você o chuta para escanteio, e o impurra de todas as maneiras para o seu vizinho. Não o vizinho que você ama, mas o que você odeia. Você assim se sente livre e liberto, — corajoso para mil aventuras, — porque afinal a solução se deu com facilidade tremenda. Mas eis que um outro homem surge, e com ele vem outro riso, o segundo, e com o riso a solução do riso. Ele pega o seu riso e o manda para você. O empurra com brutalidade, de tal maneira que aquilo te faz afogar, te deixa sem ar, e aquela sensação novamente brota com presteza ao novo dono. O problema se instaura novamente. E depois desse segundo riso veio ainda o terceiro, e o quarto, e o quinto,  e assim infinitamente, um após o outro, em cadeia, sem obstáculo que os pudesse conter. Um jogando no outro o riso d'escárnio, como se guerra fosse de todos contra todos.
     Chegou uma hora, descobriram que a força tão-só não é capaz de empurrar o riso de um para o outro. Porque o mais forte sempre ganhava de todo mundo. E assim, como num jogo de xadrez, a estratégia de um senhorzinho fora se utilizar do intelecto para com ele introjetar o riso nos outros. E também com o intelecto criar uma barreira nova que pudesse conter toda espécie de riso que viesse de fora pra dentro. Deste modo, com efeito, durante um bom tempo este senhor se apoderara do trono onde riso nenhum se acomodava, nem podia se acomodar, e onde nada enfim o pigarreava. Mas os demais, tão furiosos ficaram a respeito, que resolveram se unir todos para acabar com as barreiras daquele senhor,  mas tal era a força da barreira dele, que mesmo com essa união de risos esta não se destruíra. A solução, então, (outra resposta afinal não havia), fora condená-lo a beber veneno. E, se riso nenhum conseguira entrar dentro do senhor, diz-se que a própria barreira servira de alicerce para a aniquilação completa dele mesmo. A barreira o havia traído. Traído a ponto de o matar.
     Até hoje, os homens lutam contra o riso. Alguns dizem que o riso já havia antes da boca, e portanto antes do homem. Disso não se tem certeza, mas parece que ele é anterior ao homem, — digo, o homem a ele não se sobrepõe. E depois observaram que o intelecto também não é útil para fins de o exterminar. Que, ao contrário, ele às vezes até aniquila o próprio homem, como aconteceu no caso daquele senhorzinho simpático. A maneira mais eficaz, entanto, que se criou para o suplantar, fora a imaginação. Os homens passaram a criar fantasias de seres invisíveis que fizessem de conta que o riso fora mandado para fora deles, ainda que ele estivesse presente ainda no seu cerne. E, se tal não era possível por causa da lucidez do sujeito, a fantasia tornava-se o próprio sujeito, que com o apoio da imaginação fazia pensar que o riso estivesse fora, ainda que estivesse dentro. Ainda, o que é mais curioso é quando o sujeito se utiliza de "demonstrar" o riso para os outros, e nesse ato mesmo o joga rapidamente a eles. Pois que até isso a capacidade inventiva humana fora capaz. E imagine então o quanto de peripécias já se não utilizou para tal fim. Isso sem falar dos que sobre ele escrevem, como eu o estou fazendo agora, como um meio próprio de tirá-lo de mim. E mesmo você, caro leitor, que busca conhecimento nos livros eruditos, também para tirá-lo de ti, ou a jogar para o nada (pelo qual sempre volta), ou a jogar para os outros (pelos quais sempre volta). 
     Parece mesmo que isto, o riso, seja uma contundente marca nossa de nascença. E portanto, — se por acaso você queira tirá-lo de ti, infelizmente nem mesmo o conhecimento disto tudo que agora descrevi o poderá. Talvez o riso perdure para além de nossa espécie humana. Talvez ele esteja presente também fora da Terra. Talvez isto seja um aspecto geral do universo. Mas isso são só teorias.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O curioso caso de José Capote

Os demais  em seu derredor  não possuem nunca o Capote.
Só mesmo José possui o Capote. — Só ele,  e mais ninguém.
Todo o resto do povo é uma raça desprezível para José.
José apenas,  após muita vitória e derrota,  conquistou-o.
E ele o conquistou facin?...  Não,  conquistou ele fácil nem não.
Deixou, por si só, uma vida inteira pra trás,  sobrando é nada!.
Veio assim todo franzino, mortiferado, alvo rotineiro de mofas.
E ninguém não via José nem não!,  e dentro dele aquilo o-consumia.
Inveja tinha das pessoas, e muita  ciúmes acumulava dentro de si.
Toda uma feitiçaria de cabisbaixeza o ia sovando com brutalidade.
Afinal, metáfora sendo,  era ele negro, em meio de gente branca,
E ele era branco,  em meio de gente negra. E ele era bem-doente, 
Em meio de gente bem-sã,  e além do mais muito lúcido e saudável,
Em meio de gente míope e enfêrma.  De resto, questão não esteve
Nem nunca no ele-em-si mas na relação do ele com os outros.
Tudo isto sendo apenas transcrição de pensamento dele e mais nada!.
E isto por acaso tira pêso de si mesmo?,  culpa ele não tendo?.
Não disse eu isso, madame culpa todos temos nós, perante todos.
Mas que pena!,  podia bem-quê, aproveitar um oásis de vida. 
Pois podia, não podia?,  E ele, um idiota, sempre pensando assim-
-Assim:  que êle, não nasceu pra isso, nem pra sexo, nem drogas,
Nem rock-and-roll.  Não, ele nasceu para um único fim: o Capote!.
E depois, muito tempo depois, em saindo do vulgo, quê fez ele,
Após conquistar finalmente o Capote?. Feliz ficou por acaso?...
Dizem que virou um empecilho, madame, um traste, um toleima,
Falam até mesmo que ninguém o suportava. E ele sempre vestindo
O-Tal seu Capote, enchendo-se afinal de grande orgulho ufano e gabo.
 As pessoas todas sorríam-lhe mentirosamente, cuspíam-no deveras
Sempre quando virava as costas;  ele achando ser o Tal, o Tal-Quê, 
E os demais,  em sua humilde choça denominados vulgo, 
Punham-se cada-quais a melhor das máscaras, as que mais sorriem
Naturalmente, habilidade muito melhor dedilhada que a de Capitu.
Quer tu, leitor amigo, um caso, um exemplo real, e não este fictício?.
Jean Cocteau: "Victor Hugo era um louco que se achava Victor Hugo".
E o Capote?,  saiu, por algum acaso, das mãos de nosso José?.
As recordações poucas que lhe restaram na História dizem que não.
Discorrem, é bem da verdade, de uma doença mental específica,
Própria talvez ao personagem Dom Quixote, enfermidade curiosa
A respeito da qual muito tem-se de escritos, mas pouco de solução.
Pois que o caso era que,  durante sua estadia neste mundo, 
Inúmeros outros seres humanos possuíam também o Capote,
E esses outros, pelo menos em exteriormente se falando,
Eram bem mais humildes que o nosso José,  diz-se isto mesmo, 
E as pessoas os gostavam sobremaneira bem mais, exímios
Cidadãos sendo,  comparados a Sócrates e a Kant,  para quem
Os livres apetites e as inclinações naturais nossas deviam de ser
O possível-maior conduzidos pelas rédeas da razão filosófica.
Mas o xis em cheque da questão se dera somente em quando José,
Com toda a sua prepotência desarrazoada, se deu conta,
Sub-repticiamente, num momento vertiginoso,  Hugo sendo, 
Que ele não era o único a possuir o Capote,  Que as costureiras,
Com quem havia firmado um pacto-contrato restritíssimo,
O-haviam traído em troca de suborno, dinheiro este gracioso,
Muito mais volumoso que o com que havia pago José a elas.
E daí, de repentemente, como dizem as pessoas pelos rotineiros,
José cai bruscamente do cavalo de Napoleão, a cem léguas de distância
Do chão,  E então é espezinhado por um bando de calhordas
Que o vituperam publicamente de interesseiro e egoísta,
Dono de uma alma tremendamente ególatra e megalomaníaca,
Por cujo entremeio passam a chalaçar aquele estúpido Capote.
E, como se nada disso lhe bastasse, ficou ele, de inopino, pobretão.
Contam ainda alguns livros que, desta maneira, sem eiras nem beiras,
Dias atrás dias encafuado em seu atro-antro das bebedeiras,
Resolveu compor um livrete de memórias da vida a respeito,
Um compêndio vagaroso de suas ideias e de sua "inútil vida",
Ao final do qual,  um dia empós o término de sua escrita, 
Pegou uma pneumonia pelo vento trespassado pela sua janela,
Adoeceu desumanamente, sozinho e solitário num quartinho escuro,
E faleceu uma semana depois.  "O que fizeram com o corpo?".
Fora ele mandado para a nossa Faculdade de Medicina, ao fim
De ser estudado pelos nossos futuros médicos,  proveitosamente.
A senhora me pergunta:  "Mas ele nem amigo nenhum não tinha?".
Ao que eu digo:  "Tinha,  mas era um tanto quanto artificiôso."
 "Mas o que aconteceu no demais, no futuro disso distante?".
Bem,  tenho eu já conjecturadas as minhas poucas hipóteses.
O que eu disso prevejo é que o seu caso seja,  primeiramente, 
Estudado em termos de doença mental peculiar, à la Dom Quixote;
 E depois, num momento qualquer, alguém lerá aquele livrete,
Talvez um crítico literário ou um escritor, e enxergará deverasmente,
Naqueles textos profanos muito bem fundamentados,  a sua Defesa!, 
Porquanto era José de uma intelectualidade sem-tamanho,
Enxergará ali uma "genialidade dexorbitável, deslimitada e divinosa",
 E assim-assim, do nada, todos-mundos aplaudirão José Capote,
O-desculpando de toda a infâmia pela qual passara em vida,
E o-restituindo ao posto-mor de "dono único do Capote",  em eternos.
Ao lado respousará, enfim, dos demais Deuses magnânimos do Olimpo!
E assim nós, portanto, o vangloriaremos,  antes de mil outros Josés, 
Um após o outro, enfileirados, a patrulhar os seus respectivos Capotes.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Conto de Aninha

     A mãe de Ana muito cuidadosamente urgira-lhe para que extremos cuidados tomasse com aquele novo rapaz com quem estava saindo; não o conhecia direito, e, conquanto se fiasse quase que plenamente na boa conduta da filha, esta uma exímia estudante de medicina, sempre temerosa ficava com quaisquer imprevistos que poderiam grassar pelo caminho, e seu coração de mãe provavelmente palpitava dum modo desconfortável quando a deixava mundo afora. Ela, a dona Graça, acordava todos os dias bem cedinho, umas quatro horas da manhã, para se persignar diante de um pequeno oratório que mantinha bem ao lado de sua cama, e orava, como de costume, primeiro para Aninha, que era como a chamava, segundo para o pai amado e falecido, e terceiro por si mesma e pelo mundo. Era viúva, havia perdido o marido num acidente de avião, e bem que se poderia dizer que Ana era talvez o único autêntico sentido de sua existência, sem ter contato nenhum mais com os familiares, com quem tivera numerosas contendas e agravos por motivos que não vale a pena escrutinar aqui. Ressentimentos e ódios adentro de famílias, o senhor leitor já bem sabe, deveras perfazem a se complicar, ainda mais em quando o dinheiro entra em cena. Não obstante, quanto ao marido, ela sempre o chamava de meu querido, e, se hora ou outra acabavam por ter altercações sensabóricas, ela o amava como que a um ser único no mundo, um homem raro, como se só ele a compreendesse todas as suas maneiras sentimentos e palavras. Dizem mesmo que, com a morte dele, ela se encafuara num quartinho escuro durante uns onze meses, ao fim do qual, já com mais de cinquenta anos, não mais tivera tanto interesse para com as coisas de antigamente, e nem mesmo para com os homens, e também não conseguira mais parceiro algum. Pois que ela até quisera, depois de muito tempo, procurar alguém, mas toda a sua beleza de outrora perdera em muito o tom, nada aquiescendo a atrair homem algum, e portanto nenhum deles a olhava mais como outrora, em término do qual se prezara ela toda a cuidar do seu único tesouro que neste mundo restava, o motivo pelo qual vivia e respirava, qual seja, a sua querida filha Ana.
     Ana reciprocava o amor maternal de uma maneira tanta que o ambiente familiar, o no qual viviam ambas num moderno apartamento no centro de São Paulo, o ambiente familiar dedilhava um lirismo fino e cotidiano, presente todo em letras e poemas, palavrinhas nem muito doces demais, nem tampouco salgadouros ou amargos em extremos. Naquele dia, estava ela toda em estripulias e vibrações. Sairia afinal, pela primeira vez, exatamente como uma pessoa de sua idade  para curtir e varar a madrugada, como se diz. Iria primeiramente a algum bar na Augusta, depois do qual, juntamente com alguns amigos e conhecidos da faculdade, seguiria direto para a casa de um deles, para madrugar e amanhecer em comum. Conhecia todos assim mais ou menos, de fato, havia já um ano, quando entraram juntos na mesma universidade. Tinha ficado ela com o tal do Victor, é verdade, umas três vezes, mas ainda não era nada muito sério, e ela não fazia ideia de como tal acontecimento fora chegar aos ouvidos da mãe, não querendo outrossim ela nem mesmo perguntar, em razão deste assunto ser bastante embarassador para ambas. Por isso, em resposta aos cuidados de sua mãe, só respondeu que haveria de ficar tudo bem, porque ela iria passar a noite com pessoas com quem ela encontrava todos os dias quase, que ela gostava muito do menino, e que nada destoaria naquele dia de tudo quanto passara em sua pouca-muita juventude. A mãe, um pouco apreensiva, disse em resposta:  "Está bem, está bem. Juízo, minha filha. Você sabe que sempre eu me preocupo muito, e você mesma não sai nunca pr'esses bares. Não faz bem o seu perfil, você bem sabe. Mas, se quer ir, eu deixo, fazer o quê!. Mas qualquer coisa me ligue. Tchau!". Ao que Ana se despediu com alegria, falando para ela não se preocupar, partindo assim direto para a Augusta.
     Eram quase passados de duas da madrugada quando Ana se encontrava rodeada por uma turma de jovens, ela e mais cinco pessoas, todos meio bêbedos, falando um monte de baboseiras, e, exatamente por nada falarem de sério algum nenhum, se divertiam aos bocados, se riam qual fossem uns verdadeiros idiotas, alguns muito-meio lerdos no dizer, apagando de vez em vez o cérebro, nada conseguindo prender atenção absoluta, sorrindo para o nada, e extasiados que nem vissem diante de si a máquina do mundo, ou o desvêlo desnudo da metafísica. Ana havia bebido somente uma meia lata de cerveja, estando consciente e lúcida, e quase que tremia toda por de-dentro ao se ver diante de uma situação tão nova e amedrontante. De fato, ela havia passado o primeiro ano do curso de medicina quase totalmente isolada em si mesma, nos estudos compenetrados, saindo de às-vezes com algumas amigas consideradas por ela agora "insossas", e antes da faculdade também pouquíssima vida social pudera ela ter, em razão primordialmente dos pais a educarem em uma rigorosa disciplina nos estudos, baseada no que aprenderam de seus outros pais japoneses imigrantes, tacanhando-lhe a experiência do mundo, e privando-lhe de uma série de prazeres e de dignos conhecimentos advindos dos colegas e dos demais etcéteras. E era com tudo isso que ela se sublevava, de repente, após começar a gostar de Victor, a sair com Victor, maldizendo por isso, por vezes, o seu falecido pai, a quem passou a vituperar de ingênuo e aborrecente, e a sua mãe, com quem passara, havia pouco, a brigar. Entretanto, há que se dizer, com efeito, que, soubesse ela um pouco mais a respeito do mundo onde morava, de sua própria crueldade enfim, temblores e perfídias resguardados sob máscaras e ficções, e colocaria um pé atrás em sua intensa e eufórica rebeldia tardia, desconfiaria mais daqueles que a rodeavam no momento, e bem provavelmente também não estaria ali presente, com aquela turma, em um execrável embuste!  porquanto que as duas meninas que ali bebiam e se riam divertidas a odiavam e a invejavam secretamente, por Ana ser a mais bela e a mais inteligente da sala, bem-quista sendo em montes pelos meninos e pelos professores, roubando-lhes crushs, muito embora disso ela não se desse a mínima conta, e em sendo que os três demais rapazes, um deles o belo e dissimulado Victor, se afiguravam maliciosamente em cometer alguma vilania para com ela. E é claro que nenhum deles falara em alto, afora de suas próprias consciências, a respeito de um tal sopesamento. Mas cada qual pensava naquilo com alguma espécie trimaldita de prazer e devaneio. Os seus olhares, em si mesmos, movidos uns para os outros, já denotavam toda a malícia que ali se pervagava, e ainda, quando os seus vêres atingiam as garotas por acaso, elas se aconchegavam prazenteiramente com aquilo, esperando que uma maldição qualquer viesse a bulir com a singela rosa virgem de Ana. Ao que esta, por sua vez, conquanto se sentisse totalmente desagradável diante de toda aquela situação, forçava ao máximo um sorriso no rosto, fingindo gostar da conversa, da música alta, da bebida, dos amigos ali presentes. Ela simplesmente se esforçava a gostar do jeito-maneira que os outros jovens mais populares de sua idade costumavam se divertir, à revelia inteira de seu próprio ser. Nada de ruim a respeito deles sequer vagueava em sua mente, estando ela toda também encantada a olhar Victor, que por sua vez lhe disse: — "Não estou vendo você beber, Aninha. Por que não bebe?. Olha, vamos todos tomar uma rodada de tequila, mas eu pagarei para você duas tequilas, porque fui eu que te chamei para cá. Não me fará mal nenhum, será um grande prazer te pagar quantas bebidas você quiser, viu!". Tudo isso falava Victor com muito entusiasmo, mirando Ana de olhos com uma implícita e singular mensagem de cortejo, no que ela corou de chofre e não conseguira ter forças para negar por si mesma aquelas duas doses de tequila. Afinal, ela confiava nele, ela o amava, e via nele, por alguma razão desconhecida, algum homem muito maior e mais transcendente do que ele de fato era. Tomara ela, então, as tequilas, com sal e limão, e rapidamente entontecera, ficando fraquíssima das pernas, quase caindo, as luzes todas formando vertigens de riscos e riscos luminescentes, parecendo sabres versicolores desconexos e turvos dentros d'água. E quanto ao que ela ouvia doravante, também parecia que ela se mergulhara num outro mundo profundíssimo, como se dentro de um oceano distante estivesse, não sabendo mais distinguir os sons da música e nem das pessoas. O mundo parecesse que ia ficando cada vez mais e mais devagar, a nitidez do tempo e do espaço fosse se esvaziando que nem numa ampulheta, a música alta virasse um zumbido surdo, fino, fininho, finíssimo. E escurecia assim uma vida, enfim, por dentre os desvãos frios e negros dum penhasco, sendo este sua própria alma.
     Nesse meio-tempo, entanto, do gole da bebida ao escurecimento completo, passaram-se pouco mais de uma hora, apesar de para Ana tudo num átimo súbito ocorrer. E por durante esse enquanto, descrevo aqui um pouco do diálogo que se passara entre os cinco amigos. Gritou (porque no bar tudo fosse música altíssima e gritaria ressonante) a menina mais velha, uns vinte-e-cinco anos, loura de olhos azuis, muito bonita e agradável, de nome Amanda: — "Você pôs o pózinho no copo dela?". Victor disse que sim: — "Mas parece que ela desmaiou, está muito fora de si, será que houve alguma coisa séria?". Amanda: — "Eu... eu acho que não, deve ser alguma reação normal..., já tive umas amigas que deu isso nelas, e elas acabaram normal, só precisavam de um tempo, sabe. Se ela estiver respirando, quer dizer que está bem... Não é mesmo, Ná?". Ela se virou para a outra, que se chamava Natália, e que consentiu como quem não se importasse muito, dizendo que está tudo bem, no normal, e que daqui a pouco ela se recuperaria com certeza. Passou algum tempo, um dos garotos, chamado Paulo, negro alto e corpulento, se virou para Victor e disse, com um sorriso malicioso cobrindo a face inteira: — "E então?. Ela está aí, inconsciente. Diz-que depois, logo mais, ela acorda. Não era assim mesmo que você disse que ocorreriam as coisas, Amanda?". Esta, por sua vez, sorriu e disse que sim. Disse mais ainda que Ana seria de agora por diante todinha deles homens, no que Victor soltara sem querer um repentino riso maldoso.
     Foram os cinco carregando Ana portanto, do bar ao apartamento de Amanda, que ficava numa das esquinas da Augusta. Eram já umas quatro horas da madrugada, um sábado, em janeiro de 2017. Em dentro do apartamento, os meninos tiraram suavemente a roupa tão bem escolhida por Ana, que passara horas e horas diante do seu guarda-roupa, e se revezaram os três por durante uns trinta ou quarenta minutos. Natália e Amanda enquanto isso ficaram sentadas olhando e conversando, como se nada de mais estivesse acontecendo, rindo alto de hora em hora, e satisfazendo assim, internamente, um princípio de vingança e raiva que nutriam em si mesmas por aquele seu anjo inocente. Olhavam e se compraziam, e o terceiro menino chamado Augusto, sobre o qual não falei, um japonês baixinho elegante e franzino, extremamente inteligente, metido a intelectual, ficava meio observando-as inquieto, pensando até onde poderia instar a maldade de um ser humano. Conjecturava ele, em sua mente desnorteada, de por agora satisfeita de seus instintos vis, que não fora por nenhum acaso fortuito que havia parado ali  naquele lugar, naquele momento. Pensava que ele mesmo havia escolhido estar ali, com aqueles garotos e garotas, mas, mesmo assim, se perguntava, num tom baixinho e confuso: — "Por quê?. Quais foram as tantas variáveis e circunstâncias que me predisseram a aqui presenciar um fato tão funesto e desonroso com vocês?. Eu e nós jovens, que passamos todos na melhor das universidades do país, no curso mais concorrido de todos, que somos constantemente laureados e aplaudidos, que seremos os futuros médicos ricos e bem-sucedidos desta cidade, sim!, nós mestres e fabulosos senhores e senhoritas, pais futuros de uma criançada  de onde viera tal torpeza de sentimentos para que conseguíssemos causar a uma infeliz como essas tamanho efeito de depravação?. Seria isso algo tão simplório, tão ridículo, como dizer simplesmente que tal é assim como as coisas funcionam, porque no fundo não passamos de uns miseráveis animais, apesar de toda a moral e ética levantada em vãs meditações pela racionalidade?. Tudo se justificaria, por fim, em termos de id e de superego, é isso?. Com os diabos, vá à mèrda!". Victor se enfurecera:  "Cala esta boca, Augusto!. De novo você com esta putaria de filosofias novamente?!. Quer ser um santo  vá para a igreja, não saia mais com a gente, se suicide, entre num mosteiro  no mundo se é livre!. Quer ser um diabo  fique conosco!. É simples, é ou dar às pernas e sumir, ou ficar e não falar mais essas bobagens!. Só não se meta neste meio-de-muro, entrando ora aqui ora acolá  que merda, que saco!. E você ainda já fez o que fez, e isto ficará nas tuas minhoquinhas para todo o sempre. Por isso alegre-se, alegre-se!. Você não é um santo, Augusto. Ninguém é, claro, mas nós... Nós auferimos totalmente o Diabo!. Quá-quá-quá!". Ao que Augusto retorquia com ainda mais furor, ironizando e quase chegando a uma violência física:    "Ah, Victor, então você quer me dizer que você é todo um Diabo a quatro e só-e-só, e mais nada, é isso?. Preto no branco, e branco no preto. Parece até que já aceitou sua condição de um pobre miserável!, hihi!. Oh!, advim de Darwin, sou um macaco, um macaquinho, macaco só faz asneiras selvagens, Deus está morto porque o asfixiaram  logo, eu também só sou um macaco — e logo, eu também só faço asneiras selvagens. Que bela duma teoria!. Já tu a aceitastes e segues vivendo a sua filosofia do além-do-bem-e-do-mal, não é mesmo?. Sim, pois como é fácil se livrar da consciência aceitando-se como um mero animal, ou, o que é pior, como um bostinha dum super-homem!. Não tenho eu responsabilidade pelos meus atos, sou inocente, um macaco, um animal, ou um super-homem, dá no mesmo, blá-blá-blá, e acabou-se, sem mais discussão  que maravi...". Mal ele acabava de pronunciar a palavra, e Paulo de súbito meteu-se em transe:  "Gente, gente, parem com essas idiotices, parece que a menina aqui não está mais respirando. Seus pulsos não estão... não estão, é...". Todos nós olhamos para ele de inopino, trêmulos até aos nervos, incrédulos total. Amanda fora ver direito, e depois Natália, e depois Victor, ficando Augusto de longe inerte e tosco, suando frio  todos pareciam tirar a mesma conclusão. E disto em diante se propagara um silêncio terrorífico e inefável por sobre todos nós  um silêncio subsumido de morte, projetado com horror em nossos rostos desfragmentados  não se ouvia coisa alguma nenhuma por fora, mas um som ensurdecedor crivava-nos de lado a lado, um tique-taque interno nos infundindo uma geena em consciência corpórea.
     Neste exato momento, do outro lado da cidade, a dona Graça ainda não conseguia dormir, pegara apenas breves sonos leves, e já eram cinco-e-meia da manhã, ela toda preocupada com o que pode estar acontecendo com a filha num momento como esses. Devaneia por uns lados, vagueia por outros, mas sempre a sua filha atinge o cerne de sua preocupação, pensando se Aninha por acaso a ama tanto quanto ela, se Aninha gosta dela como mãe, se ela conseguiu enfim ser uma boa mãe e educar a querida Aninha com todo o cuidado e discernimento. Algumas vezes, resolve que sim, que conseguira projetar um futuro brilhante para a filha. Mas, contudo, em outras, resolve que não, ela fora rígida demais para com ela, perdeu muitos pontos aqui e acolá, brigou muito, e etc etc. Ao que, de um súbito inesperado, sem mais nem menos, dona Graça sente um aperto indescritível no peito, como se um pressentimento de uma grande e dolorosa perda a estrangulasse todas as suas vértebras e ossos num único e só rompante. Seria a sua filha em perigos?, pensa ela  ligando-a no mesmo instante pelo celular.
     Sábado, manhã de janeiro de 2017. Os prédios de São Paulo são abençoados pela luz de um sol distante e singular. O mesmo sol que sobrevoou Sócrates, Nietzsche, Tchekhov  o mesmo mesmíssimo sol que sobrevoou a humanidade por inteiro, em todos os inteiros tempos, em todos os inteiros espaços, agora transvoa com singeleza e igualdade, mais uma vez, em eterno, por sobre essa manhã, a todos nós abençoada. As notícias regulam um tempo bom, ameno e agradável. Numa parte da cidade, um celular toca já mais de sete vezes sem ninguém o atender, com um barulho altíssimo, mas estranhamente as cinco pessoas que ali estão em pé ao redor do mesmo permanecem silenciosas quais fossem feitas de pedra, transidas repletas de pânico. Ninguém se atreve a atender aquele celular, e os vizinhos já se incomodam. Daqui a pouco, quiçá, irá alguém para lá verificar o que pode ter acontecido. Do outro lado da cidade, não muito longe, penso que umas sete quadras distante, uma mulher oriental de meia-idade mexe o seu celular desesperada, atônita, e já está prestes a ligar para a polícia. E tudo quanto acontece no depois disso eu deixo em plena quietude, para que as coisas se concentrem no referver da imaginação do leitor. Preenche tu, portanto, caro leitor, o espaço final dessa narrativa, que por ora penso que o meu trabalho de escrita deste conto se finda por aqui.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Os encontros

     Um casal. Num restaurante da esquina, num cruzamento de avenidas turbilhonadas, em São Paulo. Bairro muito movimentado, lugar de elite, nove-e-meia da noite, uma sexta-feira. Clima um pouco frio, desagradável até, as asas do vento noturnal fazem estremecer as poucas árvores que por ali em perto vagueiam e se encolhem, buzinas estridentes marejam por quilômetros d'oceanos em tráfego, afogam de neblina negrenta todos os transeuntes que perpassam ali ligeiros, sem olhar para ninguém, sem olhar para o céu, para a lua, para nada, e nem mesmo para o chão, apenas ficando com os vêres abertos em riste. Um gato os observa  o casal  por de fora, acima de uma lataria de lixo, aquele homem e mulher que se não conversam, estranhos um ao outro, como se por acaso viessem a marcar um encontro com um desconhecido, e não tivessem sobre o quê conversar.
     Não se sabe ao certo o que se passa e repassa na cabeça do pequeno gato, assim como ninguém faz a mínima ideia de que torneios de pensares poderiam estar revolventes naquele casal de marido e mulher. Brigaram eles antes de vir?, já se conversaram sobre tudo o que poderiam conversar e não sobrou mais conversa?, estariam aborrecidos?, e se sim, por quê?. Não sei, sinceramente, há quanto tempo eles estão ali, mas eu os abservo do lado de dentro, sob um ponto de vista contrário ao do gato, do lado oposto a ele. A moça deve de ter uns quarenta-e-cinco anos, e o homem aparenta ser bem mais velho, uns sessenta-e-cinco, eu acho quê. Ela está surpreendentemente bonita, usa um vestido de tule branco muito bem desenhado, ornamentos de flores, a saia de um tamanho médio, seus anéis e brincos parecem ressumar relíquias de diamante. Sorri de raro em raro, parecendo ser muito séria, apesar de a cara-em-si-mesma denotar certa alegria de espírito. Numa palavra, parece ser bem mais nova do que realmente é, com um semblante de jovem. Isso talvez se deva ao fato de ser oriental. Aliás, os dois são descendentes de japoneses, ou coreanos, ou chineses, eu não sei ao certo distingui-los. Já o senhor aparenta de fato ser bem mais velho, usa uma camisa social de um tom fortemente escuro-avermelhado, um terno armani, seu cabelo grisalho está bem penteado, um óculos fino de marca dando harmonia aos contornos da face, elegante sendo aos extremos.
     A refeição é servida. Pouca comida até, mas muito bem preparada, como em culinária europeia, da mais fina e requintada, afazeres artísticos dos menos duráveis que há, e no entanto dos mais realmente apreciáveis e sentíveis. Um vinho tinto servido pelo garçom a ambos, cada qual cumprimentando-o por trazer toda a comida, e ao final dizendo um fino muito obrigado!. O homem arregala bastante os olhos, endireita os óculos, solta um largo sorriso, e diz:  "Bem, bon appétit, espero que isso satisfaça o seu gosto, restaurante mais caro que este não há. Quem sabe assim você me reconcilie e pare de me olhar com tanto desgosto!. Que saco!". Uma risadinha forçada se faz latente ao final, ao que a moça, comprimindo os punhos nos talheres com uma força brutal, suspira fundo, fecha os olhos, tenta pensar em algo algum outro qualquer, e diz, como contente e artificial:  "Muito obrigada, paizinho, monseñor. Quem sabe, com o seu dinheiro, eu me esqueça de tudo o que você fez. Vou pensar no caso. Já que você resolve tudo pelo dinheiro, vou arranjar de me envolver com qualquer um de qualquer bar, qualquer coisa tu lhe dês mil reais para que eu continue com essa tua canalha e com os teus filhos idiotas!". O final de sua frase fôra impresso com tamanho tom e contundência que vários dos demais presentes no restaurante subitamente viraram o rosto, alguns soltando risadinhas malévolas, outros cochichando com uma leve inclinação e mão na boca. A moça me olha de modo tão acintoso que eu não vejo o porquê daquilo, não fazendo eu nada, e rapidamente desvio o olhar. Fico uns cinco minutos sem olhá-os. Quando volto o rosto, me deparo com o gato de novo, e de novo com o casal, que parece jantar tranquilamente, tudo voltando ao normal, como se nada houvesse acontecido.
     Os dois, hora em hora, minuto em minuto, voltam suas atenções para os pormenores do en-derredor, ou ainda mesmo comem de pouco a pouquinho o delicioso jantar que lhes fora tão carinhosamente servido e preparado. Eu me esqueci de mencionar  um pianista toca com agradabilidade uma melodia por suave e serena, como pianissimo. A iluminação do ambiente é algo um tanto romântica e aconchegante, não muito clara, mas nem tampouco muito escura demais. As pessoas falam baixinho, e é tudo como se nós todos fôssemos os melhores cidadãos que neste mundo pudesse haver, os mais ricos sendo os mais sábios. Calmos, bem-trajados até demais, graves, serenos, endeusados, encantados. Cada sorriso e cada gesto ali perpetrados parecem terem sido meticulosamente calculados, e, em aos mínimos detalhes, vê-se um rompante de poesia metrificada e ritmada, sortida fosse da mais doirada metafísica. Um tropeço acolá, viraria um tropeço dos deuses, feito de poucos gestos e sons e gritos, ainda que dor de muita houvesse, e um sorriso todo mecânico se insurgiria sem muitas dificuldades, cada um desejando boa-saúde e outras coisas além. A única coisa que por aqui destoa em muito é aquele peculiaríssimo casal, o cujo que aos nossos olhos, por sua vez, se torna o mais cômico e ridículo, julgamento que presente está no de-dentro de todos nós, até mesmo dos garçons, mas que ninguém fala ou deixa passar à mostra de nada, todos sendo mui bem civilizados e donairosos. Eu observo com grande tento os dois, e além do mais o gato, que me não para de perscrutar, dando-me calafrios.
      "Pedro!, aos diabos, onde você está agora?. Viajando para Marte ou pensando em música?. Estará pensando em música num momento como estes?, como você não muda!. Hoje é uma ocasião rara em que podemos estar em família, seus filhos nem moram conosco mais, e eles fizeram um baita esforço para aqui estar com você, e você nem caso algum faz deles, estando no teu maldito mundinho da música!. Como você é orgulhoso, só em sendo assim mesmo para tanto gostar da solidão e para se ser um alineado do mundo, nem se importando ao menos para com os filhos. Para com a esposa, vá lá, vá lá!. Mas não se importar para com os próprios filhos, como existir tal coisa pode neste mundo?!. Oh, glórios tempos em que Jesus ainda estava vivo!, mas por que o tiveram de matar afinal?". Minha esposa me interrompe com todo esse discurso os meus devaneios, o do-casal e o do-gato, eu de repente me dou conta de que estou presente num jantar de família, de que os meus dois filhos estão ali para comemorar o dia-dos-pais, que será no fim-de-semana, e de que eles estão tentando comigo conversar de há muito tempo, coisa da qual eu não atinara por alguma razão que desconheço. Sempre fôra eu assim  nunca neste mundo concreto estando eu presente  todos os momentos pensando em vida e em música, minhas duas maiores paixões, depois das quais vem o resto.  "Não, mas eu não estou pensando em música. Estava apenas observando melhor o casal ali, mas não é nada de mais, me desculpe. Essa conversa que tu implicas já tivemos mais de cem mil vezes, estás lembrada?, pois quando é que você mudará o disco?. Pare de falar sempre as mesmas coisas. Estamos num restaurante, deve fazer mais de uns seis anos que não vamos a um restaurante, e por isso, por favor, instaure-te uma conduta menos ofensiva, deixemos as brigas para casa, sim?. Vocês estavam conversando sobre o quê mesmo?". Perguntei ao final, e não obtive nenhuma resposta. Meus filhos me olhavam com muita indignação e desdém. Já eles estão de todo crescidos, o mais velho tendo vinte-e-um anos, e a mais nova dezenove, mas eu de fato não os conheço direito. Parei de conversar bastante com o mais velho quando ele tinha uns dezesseis anos, época de adolescência mais em polvorosa, em cujo caminho transcorre tantas náuseas aos jovens, e o contato e a amizade com os pais perde, por vezes, em muito a força. E com a minha filha pouca intimidade tenho desde há muito tempo atrás, não me lembro quando direito, sendo o mesmo problema que do mais velho. Queria eu que eles fossem crianças para sempre. Nós não brigaríamos tanto e não nos enclausuraríamos em nós mesmos com tanta pertinência. Passou um tempo, a minha esposa disse:  "A sua filha quer que você conheça o novo namorado dela. Chama-se João Damaceno. É da faculdade. Diz que quer um autógrafo seu e tudo o mais. Falou que você toca o piano bem, e que grande honra seria conhecê-lo.". Eu não posso falar outra coisa a não ser um tudo bem, e portanto eu assim faço, e nem pergunto mais que tipo de pessoa ele é, porquanto a minha filha já teve uns tantos namorados, e sempre que ela me vem com mais um ou menos um, eu penso de ser só mais ou menos um na lista, no mais rotineiro dos cotidianos. Na minha época não era assim, mas se assim é hoje  que seja. Minha mulher fica brava, furiosa, esbraveja, porque isso dá no que falar, ainda mais em sendo eu relativamente famoso. Ela grita, e eu grito  ela grita novamente, e eu grito novamente  e os nossos gritos todos de súbito se transformam em notas de piano, ondulando insigneosamente aos violinos e aos violoncelos. Componho eu músicas magníficas com as nossas desgraças. Ironia da arte?, pode que seja. Voltamos nós quatro, então, a comer a refeição. E o engraçado é que o jantar parece-que fôra parar ali na minha frente, e outrossim parece-que eu já estava comendo.
     Coisa estranha. Eu volto meu olhar para o mesmo casal de antes, e mais um outro casal está sentado na mesma mesa com eles, os dois de par em par em cada lado da mesa. O gato ainda está ali atrás, e ele todo-todo assim em mim compenetrado parece ser envio de maus presságios, eu passo por isso a temê-lo, porque sempre fui bastante supersticioso, e esse temor de pouquinho vira medo medonho, de pouquinho vira assombro. De volta ao casal, eles agora parecem estar exageradamente felizes, conversando uns com os outros como se nenhum resquício de intriga houvesse entre os dois inimigos, a japonesa falando:  "Nessas férias, fomos eu e meu marido com as crianças para a China. Você não faz ideia de quantas pessoas há naquele lugar. Em todos os lugares parece que está lotado, entupido de gente, um caos sendo de parte a parte, num sem-fim. Nós tiramos tantas fotos. Tantas!. Oh, depois eu te mostro.". E o homem, que parecia ser estrangeiro e alemão, a olhava todo admirado com aquilo, como se criança fosse. Diziam piadas uns aos outros, e riam forçosamente, como que por sendo programados a tal, divertindo-se da mais idiota fala. Depois, numa troca constante de assuntos, todos desencadeados por alguma sequência lógica, o assunto fôra parar, curiosamente, não se sabe por quê, em segredos. Quais são os segredos dos seus filhos?, a sua filha já arranjou namoradinhos?, já estão eles todos aos cochichos?  a mulher do alemão perguntava, ao que a japonesa atalhava:  "Não sei, não sei. A minha mais nova anda que anda mandando mensagens no WhatsApp, se rindo à toa e aos florêios. Às vezes até escuto eu umas mensagens de voz de algum rapaz aí. Essa juventude de hoje...". A mulher então pergunta, toda risonhamente, como que brincando, sem quê nem para quê: — "E você, Lucas, quais são os segredos que a sua mulher não nunca descobre de ti, hein?. Os há, os há?". A japonesa coaduna:  "Sim, vamos, conte a todos nós quais são os seus segredos, Lucas, vamos, vamos!". Ele:  "Ah!, eu... durmo por vezes sem tomar banho, esqueço de tomar uns remédios, coisas dessas. No mais, no entanto, nem segredo nenhum não tenho não."  ri ele desconcertado, e todos também se sacolejam aos risos:  "Não é isto não, Lucas, fale para eles o que eu descobri de você!. Vamos, fale!. O que é que você anda fazendo, todos os sábados, em quando diz que muito trabalho há para fazer e tal-e-tal?. Com o quê gasta o nosso dinheiro aos sábados todos?. Você não é o santo-santinho, o justo, o impecável moral do trabalho, o que faz grandes discursos, chefe-magnata brioso a que todos aplaudem?". O outro casal começou, por pressentimento, a temer algo estranho e obsceno vindo por aí, a japonesa parecia estar querendo tirar satisfação de alguma coisa, e eles nervosos ficaram, em montes. De fato, a outra mulher, que era morena e das-boas, tranquila aos zens, esboçou interromper com qualquer coisa, de modo risonho e educado, tropeçando na fala, mas fôra rapidamente cortada com total grosseria, em que a japonesa insistia em que seu marido falasse, de por agora nervosa toda e aos delírios.
     Eu me volto sem querer para o meu mundo, para a minha mesa, e levo um susto!, não vejo mais ninguém, estou eu total em sozinho, com meu prato ainda cheio de comida, a mesa limpa, as três outras cadeiras vazias. Meu coração começa a palpitar em mais acelerado, eu me lembro de que eu não posso ter emoções fortes, por causa de meu problema cardíaco, e exatamente por isso começo a suar frio. Pergunto ao garçom para onde foram a minha família, e ele me diz que já faz um tempo que saíram, e que já pagaram a conta, me deixando por ali mesmo. Ao que eu saio para fora do restaurante, e de lá não encontro mais o carro estacionado  no lugar dele vendo outro. Eu começo a perder um tanto o ar, pego o meu celular e ligo para a minha esposa, e de inopino vejo o mesmo maldito gato na minha frente, no mesmo lugar de antes, agora me encarando de perto-pertinho. Não sei bem o por quê, mas eu fico com um medo largo daquele bicho. As chamadas para a minha esposa, para os meus dois filhos, são desligadas de imediato, em acinte. A realidade externa a mim passa a não mais fazer sentido imagético, as coisas todas à volta minha tonteiam e se giram, qual eu estivesse tremendamente bêbedo, ou mesmo sendo o mundo quem delirasse por completo em minha frente. Noturnos eu ouvisse com total nitidez e apuro.
     De chofre, um estrondo perpétuo em estilhaços e cacos quebra pois o vidro do de-frente do restaurante, despejando de lá a japonesa toda em sangrias, esta caindo quase já inconsciente no chão, a esganiçar sons vãos de socorro. O velho japonês atrás dela pula para fora xingando às escâncaras:  "Sua filha da puta!. Sua filha duma puta, duma vadia!. Quem você acha que é para desonrar um homem tão respeitável como eu, hein?. Você já bem sabe que aquele homem ali é um dos meus subordinados na empresa. Quer então que as pessoas me façam pilhéria, que riam de mim, e que me chamem de hipócrita, é isto?, sua vadia!, é isto o que quer?, tantos anos de esforço contínuo para construir minha reputação, sendo duma vez por todas destroçada por ti!". Muito provavelmente ela não ouviu nada daquilo. E ele começou mesmo assim a sová-la ainda mais com toda a força, as pessoas tentassem privá-lo daquilo fazer, mas tudo fosse vão e inútil. Naquele momento, eu não entendia direito o que estava acontecendo, só me lembro de ter caído por sobre a japonesa, tentando não encostá-la, para também protegê-la daquele homem. Mas, depois disso, levei eu mesmo uma bordoada na nuca que mais parecia um carro me caindo em cima com tudo. Não me lembro mais de nada. A última coisa que me apareceu aos olhos, entretanto, quando eu estava de bruços no chão, a cabeça em aberto aos sangrados, fôra o gato  o malino gato  em minha frente ainda, me encarando, os seus olhos frios e indiferentes, tranquilamente lambendo as suas patinhas. Era a Natureza me mostrando a insignificância tépida do mundo humano que a ela se representa. E diante desse todo-total trágico, mundano, o gato, então, lentamente, foi-se indo embora, sonolento, tudo aquilo lhe aborrecesse sobremaneira, os seres humanos estúpidos sendo, como formigas num formigueiro, e o horror assombroso e supersticioso que eu lhe conferisse estivesse apenas na minha cabeça, sendo eu próprio a causa de minhas maldições. E tudo findou num eco de negras trevas. Os-escuros, escuro.