terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sobre a Literatura

     Constitui demasiada pretensão querer discorrer sobre assuntos tão gerais como este - a tal da Literatura - a sua essência enfim - e isto penso ser assim para qualquer pessoa, seja esta culta ou não, seja esta entendida em assuntos tais como filosofia e literatura ou não, seja esta famosa intelectual ou não. Mas, de qualquer forma que seja, alguém o deve fazer, e para tal é sempre recomendável recorrer ou aos clássicos da Literatura em si, ou aos clássicos da crítica literária, esta estando composta por filósofos, escritores, acadêmicos e críticos. Vir perambulando pelos campos e bosques verdejantes atuais, os que contemporâneamente mais vendem e se destacam com chusmas de holofotes por todos os recantos e larguezas, sustentando livrarias e editoras, por mais sonoros que sejam, novinhos em folha, prontos a serem degustados com regalias e louvores, aplausos que não nunca não acabam, nada disso recomendo ao muito se em comparamento, e nem mesmo os meus textos julgo estar minimamente entre os recomendáveis, e isto não por orgulho de humildezas, mas que perfeccionista sou até aos sangramentos, até às torturas. Escrevo muito por efeito de treinamento júbilo e alegria, coisa sem a qual eu não posso passar nunca e nem mesmo viver, e no entretanto a cada dia que passa pela corrente das semanas mais consigo odiar e achar ruim os meus próprios trabalhos, feitos estes anos ou semanas atrás. Não obstante tudo quanto escrevi agora mesmo, discorrerei um pouco sobre a Literatura, o que eu sobre ela penso, sua relação com a Filosofia, e coisas afins tais quais.
     O assunto primordial e primeiro sobre o qual devo obrigatoriamente falar, com o qual começo todo o encadeamento lógico, é a sua relação com a Filosofia - e portanto com a Verdade, com as verdades, com a Realidade, e com as realidades. Para se ter uma noção geral disso a respeito, há-que-se averiguar, linguisticamente, a estrutura frasal mais simples e precípua do que aprendemos na escola: qual seja, a frase sujeito + verbo de ligação + predicado (separo verbo de predicado por acinte). Esta análise provém de Aristóteles, e nos pode delinear um pouco mais o caminho pelo qual quero levar a fazer entender a Literatura. Diz-se que: o predicado constitui tudo quanto é atribuído ao sujeito, seus ditos acidentes, ou fenômenos, ou tudo aquilo que vemos e nos é transmitido pelos órgãos de sensações e sentidos, internos ou externos, com os quais viemos a nascer neste mundo. Nós todos temos contato directo ao predicado, por estar aí posto, exatamente na nossa frente, neste computador, neste celular, neste papel, nesta pessoa ao lado que amamos, no poema com suas letrinhas, e etc etc. Para mim, é como se o ponto de vista estivesse bem próximo de nós, não o nós-geral, mas o nós-individual, cada qual de per-si, sendo-nos fácil compreendê-lo, nos atingindo directamente, e portanto muito mais perto do chão e solo estando, e mais perto também da vida sensitiva e desfrutável. Entanto, o problema maior está nos dois primeiros, isto é, no sujeito e no verbo de ligação - o qual se mergulha e se afoga no mundo das essências, nas ditas realidades objetivas, na substância, sem interferências nenhumas de qualquer subjetividades que possam deturpá-la. A título de exemplo, pensaria numa dada pessoa, esta rodeada de amigos e inimigos, presente no escritório, na casa, na faculdade, na rua, nos bares, no em-si-mesma, sendo que cada qual destes seres que a rodeiam possuem uma experiência particular e única com ela, aventando-lhe ter por essência uma determinada ideia colocada de por-já em suas cabeças de antemão. Um sujeito, por exemplo, a acha arrogante, outro a acha legal, outra esquisita mas santa, outro uma excelente índole, outra uma hipócrita, e por aí vai, aos infinitos, se elencando cada predicado a ela carregado de acordo com a experiência que com ela se teve de cada um por cada um, diferenciando-se seja por distância no espaço, seja por distância no tempo, seja por distância no âmbito psicológico-social. A Filosofia, a saber, procuraria desvelar qual a essência dessa pessoa, em todos os tempos de sua vida, quando criança, adolescente ou adulta, e em todos os lugares por ela frequentados e habitados, seja externa ou internamente, sem a estar vendo de modo parcial. E aí está posto, então, o grande problema metafísico, complicadíssimo, sobre o qual os filósofos se debruçam com severidade e disciplina de cientistas e geômetras, desde o mundo antigo, mas que dificilmente conseguem descobrir algo com a mesma cientificidade clareza e certeza com que a matemática e a lógica faz as suas deduções. 
     Tudo isto digo por quê. Tomando uma esta ideia de Tzvetan Todorov, crítico literário francês, compreendo que a Literatura está presente muitíssimo mais perto do ponto de vista humano e terreno nosso, em contraposição com a Filosofia, que tenta árduamente se despregar deste chão e colocar o ponto de vista no além-humano, no ontológico, muito longe da Terra, como se Deus falasse do alto sobre nós aqui presos ao solo, para assim tornar as coisas muito mais certeiras exatas e objetivas no seu julgamento, abrangendo todos os seres humanos, a Natureza e, enfim, o Metafísico. São dois campos de escrutínio semelhantes, diz-se, mas com perspectivas diversas, muito longe uma da outra. Para efeito de analogismo, penso estar a Literatura presente muito mais no lado do predicado, e a Filosofia, no lado antípoda do sujeito e do verbo. Diz Heidegger em uma de suas conferências: "Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois 'moram nas montanhas mais separadas'." Ora, o grande empecilho de tal pretensão da Filosofia é que ela é feita por um ser humano, e isto muito problemático se torna para efeitos de estudo. Resume isto numa nota de rodapé Hannah Arendt no livro A Condição Humana: "... a resposta à questão 'Quem sou?' é simplesmente: 'És um homem - seja isso o que for'; e a resposta à questão 'O que sou?' só pode ser dada por Deus, que fez o homem. A questão da natureza do homem é uma questão teológica tanto quanto a questão da natureza de Deus; ambas só podem ser resolvidas dentro da estrutura de uma resposta divinamente revelada."
     Agora, novamente a frase reescrevo: tudo isto digo por quê. Se se quer uma análise realmente obliterada de quaisquer subjetividades, um pensar e um revelar da Realidade-em-si, ou seja, se se quer ver uma dita Verdade, um ser, uma substância - o conselho máximo é que se procure muito mais a Filosofia do que a Literatura, e mesmo assim a primeira tergiversará dos seus apelos sem mais nem menos, não por culpa de negligência dos filósofos, mas muito pela incógnita sutil que se é isto tudo. Mas, no entanto, se se quer se aproximar um tanto da vida e de seus louvores e estranhezas - há-de-se afogar na Literatura. Mas a questão, sempre, é não se apropriar ao demasiado desta última tal como se ela estivesse nos dando a Verdade absoluta das coisas, pois isto nem mesmo a Filosofia ou a Teologia consegue nos proporcionar. Como exemplo, tem-se a frase de Clarice Lispector, no livro A Hora da Estrela: "Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só." Ora, sob um âmbito geral filosófico, exigiria-se uma tônica de argumentação para se sustentar isto, não é algo que todos concordariam. Mas, mesmo assim, nada na Literatura é um tanto em vão, não sendo como se ela apenas mentiras e superstições frívolas proclamasse. Porquanto, apesar de tudo isso, de todos os problemas concernentes à Metafísica, nós, com a passagem livre com que os livros de contos romances e poemas nos oferecem acesso, e ainda mesmo a música a pintura e o cinema, com o choque de se nos apresentarmos aos mais diversos e contrastantes predicados, com tudo isso, nós conseguimos ao menos algum gosto da essência metafísica quiçá sentir. Igual que Fernando Pessoa - tão contrante este, sob a figura de Alberto Caeiro, à ideia de que as realidades constituam uma Realidade só, uma dita ideia-geral - em seus solilóquios merencórios se estonteia, agora sob a égide de Bernardo Soares, com o talvez de que possa ele mesmo, da criancice e da juventude à idade adulta, ter sido o mesmo - ou seja, algo pode haver que nele não mudou. Da mesma maneira quanto à Vida - da mesma maneira quanto à Literatura - vemos constantemente que os problemas na verdade são parecidos e não mudam em muito, constituindo aquilo que chamamos de Literatura Universal, tal como se a ideia do eterno retorno de Nietzsche estivesse, de algum modo, certa. Lê-se Virgílio, lê-se Cervantes, lê-se Dostoiévski - tão separados estes em tempo e espaço, mudando a forma e o conteúdo tremendamente, mas parecendo tratar sempre do mesmo assunto, da mesma essência humana, ora sob um ponto de vista, ora sob outro. Bem, o que muda ao muito é a concepção metafísica de cada qual, fazendo total diferença na estória dos livros. Entretanto, ainda assim, os pontos d'essência que os agregam à chamada Literatura Universal não são nem um pouco em vão, tanto é que nós brasileiros os conseguimos entender, se não de todo, pelo menos um pouco, apesar do entrave da língua.
     A última questão que averiguo neste texto é uma opinião minha de por-fim e conclusiva que tenho a respeito tanto da Literatura quanto da Filosofia. Se a questão da natureza do homem é, como aduz Hannah Arendt, uma questão teológica, que somente pode ser divinamente revelada, o que são todas essas verdades soltas em borbulhas presentes nos livros literários? Estão eles de todo errados, sendo todos falácias? A minha especulação é que talvez estejam errados, se queres tu uma ideia-geral que a tudo congregue e abarque, mas que estão certos ao mesmo tempo, se queres tu verdades literaturas e ideias do mundo, que mais interpretações dos fatos me parecem do que uma dada Revelação. Pois se pergunta: um mesmo fato dado a nós pelos sentidos pode ser interpretado de duas maneiras totalmente opostas, e as duas sendo de todo certamente relevantes, muito à revelia de serem contraditórias entre si? A mim, penso que sim, é-se possível. Logo, por conseguinte, esse costume a nós imbuído de ficar com o pé atrás quando em lendo Dom Casmurro, por causa do narrador parcial, de repente, se nos torna um dogma! Porquanto quero propor-lhe as seguintes reflexões: se mesmo a Filosofia não consegue nunca achar um veredicto para as suas proposições acerca da Verdade do mundo, como poderia isto fazer a Literatura?, sobre o que fala a Filosofia, e sobre o que fala a Literatura, se a essência do ser humano e do mundo não soubermos nem pudermos saber?, por que carregamos as tintas em falando que o Realismo nos oferece o Real, em oposição aos outros estilos literários?, o materialismo ateísta proposto por Augusto dos Anjos, com o seu Deus-verme, seria uma essência do mundo, ou uma interpretação da essência do mundo?, quem está mais certo ou menos certo, G.H. com a sua crueza e morbidez pregados na visão, ou Riobaldo com o seu modo de todo jagunço de se olhar ao mundo?
     Todas estas perguntas me sugerem que, se no entanto esta essência é, talvez, inescrutável, inentendível, pelo menos seja um algo interpretável, um algo especulável. E ainda, em sendo o ser humano ávido por estas questões, seja ele quem for, preocupando-se com filosofia ou não, por tudo ele se revolve nisto, exatamente nisto, no Metafísico, e tudo ele especula, no e ao sem-fim. Porquanto, afinal, sem isso ele se desespera. Não sabe ele não especular. Por isso ele religioniza - por isso ele poetiza e filosofa. Note-se o escrito de Anton Tchekhov, do conto Uma história enfadonha:
     "Penso, fico muito tempo pensando, e não consigo inventar nada mais. E por mais que eu pense, onde quer que se espalhem os meus pensamentos, é evidente para mim que em meus desejos falta algo essencial, algo muito importante. No meu fraco pela ciência, no meu desejo de viver, neste ato de ficar sentado numa cama alheia e na ânsia de conhecer a mim mesmo, em todos os pensamentos, sentimentos e concepções, que eu formo a respeito de tudo, não existe algo geral, que una tudo isso num todo. Cada sentimento e cada pensamento vivem em mim isolados, e em todos os meus juízos sobre a ciência, o teatro, a literatura, os alunos, em todos os quadrinhos que desenha a minha imaginação, mesmo o analista mais hábil não encontrará o que se chama uma ideia geral, isto é, o deus do homem vivo. / E, se não existe isso, quer dizer que não existe nada."
     Numa palavra, escreve Ricardo Reis: Crer é errar. Não crer de nada serve.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A morte

     Algo como que um relâmpago infiltrado nas ondas divagas do sertão me tingiram naquele momento. Algo, digo - como se o sertão estivesse árido por demais - e como se uns insetos prorrompessem por ali, ervas-daninhando ao não-mais-cabo, ao fadário de morte putrescente, ao seco fim duma vida inteira, sem-adjetivos, sem-nada, vivida esta com toda a intensidade dum romântico possível. Uma vida inteira reduzida possivelmente ao pensar, aos livros, às letras. Valeu a pena? - nem nisso não penso - não! - para quê me serve disso pensar, num momento tão decisivo como esse? Não cabe pensar na vida quando se tem em vista de frente a morte. Pois quando se vive a vida, há-de-se alegrá-la e benzê-la em vivaldis, espermando esperma, sorrindo o sorrir, chorando o chorar, gracejando o poema da vida - nada mais que isso. Criança sendo - Deus abençõa. Mas quando em vista de morte se encontramos - cabe pensar na morte - só na morte - digo, pensar no impensável - porque sempre se pensa na morte pensando-se na vida - não-sabendo-se que com morte nada se pensa, e nem mesmo o ato de realizar pensamento vige neste entrementes. O que se dedilha portanto? Exatamente isso - nada se me veio na mente - digo, de tanto que se me veio, findou que nada se me veio - e só mesmo um sentir intenso e hórrido transbordava de dentre os meus dentes. Era a morte me comendo as vísceras, fazendo-me escarrar sangue-vômito, compulsóriamente, minha alma saindo de aos pouquinhos, como se tudo de inopino ocorrer não pudesse. Era um sentimento de medo. De medo da morte somente - a vida não mais importasse - livros e letras não mais importassem - ninguém não mais importasse - pois de que me vale as últimas palavras dizer em vistas de tão mísero fim? Possivelmente, estando eu mais conforme decente, diria somente refrão de refrão de Eclesiastes, aquilo mesmo que disse Locke em derradeiro: tudo na vida é vaidade, não mais que isso. Conclusão de vida, que de mais clichê não há. Mas nem nisso não quis falar, de nôjo que isto de grandiloquência me causa às vezes. E tenho nôjo eu de fato disso? Pois ainda. No que pensei? No que pensar? Ah, adivinha tu no que pensei - que mais vergonha me causa de tudo quanto em vida já tive de me enrubescer - pensei no fideputa do emplasto machadiano, e quanta desgraça em mente acumular não pude de saber que o Brás Cubas também era eu! Justo eu! Eu, eu, eu! - e olho ainda para ti, teus olhos mornos e pueris, a gentileza da graça em pessoa, seios tão belos medidos e avantajados, moreneza em tom, maneiras de lordezas, rostinho tão bonito, inteligente, encantamento de poetas, alvo frágil dos falos em meneios tão discretos - e olho para ti - e vejo muitas coisas, descritíveis ou não, mas quê isto importa?, que também detecto um Cubas em ti inculcado, e também um Karamázov, qual marca de nascença fosse. Pessimista sendo estou eu? Pode que seja. De ver a morte assim tão de perto e transpassá-la no duro e rigoroso faz a gente perder um pouco o otimismo.
     Este relâmpago fora procedido, então, por uma fina espada reluzente vinda dos céus - tronos de Zeus digladiando com Poseidon, ao fim de fazer Samsa escutar o divino por de dentro de seu quartículo anegrado de sangue branco, estilado como soro no chão, uma maçã o torturando nos ventres vértices - trovoadas de náuseas formando - em sua epifania G.H. blasfemando - mares incontinentes trespassando muralhas - palpitando o coração quintessente de mim em acelerado, quase que no átimo da quebra venosa-arterial. A aorta em quase nas suas últimas auroras. Pois nunca ao nunca-mais poderei eu participar desta vida novamente?, pensei. Fim de vida - e assim plec? Então é isto? Que, se fôr, isto seja, com a glória do Cujo - Amém. Ao que esta ideia me fora vindo devagarinho, de tanto em tanto pouquinho me detivendo em medo por mais medo, ali no embuste de se ver que só vinte anos se passaram - oh, juventude tão pouca! - para que mais não pudesse eu sorrir à vida. Valeu a pena?...
     Parecia que eu e meu corpo não se encontrassem, tal como se meu espírito se apartasse do meu âmbito corpóreo num repente. Tudo quanto minha alma fazia, meu corpo não acompanhava, e nem mesmo disso perto chegava. Eu e meu corpo sendo ambos alheios um ao outro. Coisa estranha: a dor dilacerante que tive de começo ali no meu órgão quando o corte se dera de través - aquilo que muito de insuportável trazia - tudo havia passado, dor acerba mais não havia - e estava eu de já delirando às avessas - o mundo fosse um lugar distante onde as pessoas se preocupavam com mesquinharias - o cotidiano não mais existisse - fosse só eu e a morte de banda agora abraçados, como se penetração houvesse entre nós dois, numa intimidade que não nunca eu tivesse tido em vida minha toda. Sangue anegrado saía de mim sem que eu uma mínima dor estivesse sentindo.
     Os mares todos da Terra trefegavam com aleivosia diante de mim, de minha situação danosa e nojenta, ridícula de pilhéria. Estaria eu com pena de mim naquele momento, por fim de fazer valer a minha grandeza, assim como fizera Poe em moldes byronianos no poema Alone?, assim também como fizera Sócrates em bebendo cicuta sob o afago do divino?, ou mesmo Jesus Cristo em cruz de todo estertorado? Não - para mim que aquela situação era tão néscia e estúpida que eu tive a capacidade de me rir de mim mesmo, ultrajando Poe, Sócrates e Cristo - todos comigo - numa mesma barca de riso e humor. A vida, por mim pensada naquele momento, parecia tão vazia e oca, tão alheia a mim mesmo, ainda mais de quando em morte próxima, que qualquer tentativa de sagrado e de alcandorado que por ali houvesse transfigurava-se em motejo de adolescentes malcriados. E isto diferença nenhuma me fazia, pouco se me dava aquilo no momento.
     Ao que eu comecei a escutar por vontade própria - que aquilo tudo fosse imaginação, loucura e intensidade minhas - a Ode à Alegria de Beethoven - os últimos momentos de minha vida sendo prazidos de escutar a parte minha favorita de toda a música clássica. Coisa de criança. De criança que sempre em mim houve. Uma felicidade por minutos finais, como que numa redenção, e por aí renasceu novamente em mim o sagrado, coisa de que mofa fazia eu segundos antes. Condição humana. Felicidade houve? Pode que seja - ou que não seja - mas o que se deu é o que se deu. Sabe-se lá o que se deu? Desejo único e de por-fim que tivera eu em quando em leito de morte, entanto, por mais engraçado que isto seja, que disto risada muita eu dou por de-dentro sempre, fora ouvir uma partezinha lúdica da Nona Sinfonia de Beethoven, simples e graciosa, e esquecer todo o emplasto, toda a minha vida, toda a minha ambição e vaidade, os meus irmãos, os meus pais, os meus amigos e namoradas, invejas-luxúrias-potências, idiotezas e mesquinharias, acrescentadas todas por aquelas duas notas tantãm-tantãm do quarto movimento, em após quando um silêncio súbito se dá pós marcha heróica divina, tão próprios de seu autor.
     Meus pais choraram de muito quando souberam da notícia, meus irmãos se entristeceram ainda mais com não mais me haver em casa, amigos de um ou dois confrangidos ficaram. O resto dos conhecidos nada ou pouco sentiram, como é o mais natural no transcorrer dos fatos. Passados um tempo - a dor de minha mãe e de meu pai foram a que mais tempo perduraram - pois que de tudo fizeram por mim - e eu quase que nada lhes sendo gratos com a minha pérfida morte. Mas, no entanto, uns anos a mais de colheita, e toda a minha história e a de minha família também viraram vapor e pó dos tempos de antanho. Uma vida inteira reduzida possivelmente ao pensar, aos livros e às letras - ao que dera em nada, em nada! A pátina dos anos encobrindo lentamente a pintura doirada de nossas vidas, até que o nada bruxuleia de espontâneo, e reponta ao todo de vez, em mor de dar espaço pra outras almas mais - vindouras, renascentes, celífluas - num eterno sem-fim perpétuo. E a vida sempre seguindo como dantes. No ritual. No normal. Até o fim. Valeu a pena?...

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A fábula do corpulento homem-sombra

O corpulento homem-sombra
Desfila pra frente lento.
Ao que o chão em desarrollo
Em contrário o volve lento.

O homem-sombra corpulento
Então enfuna fogueiras
A imaginação a fruir-se
Mas sem eiras nem beiras.

Homem-sombra o corpulento
De simbolismo tragado
Só em Pasárgada revive,
Realismo vão estragado.

Homem-sombra corpulento
Crivou em costas largas faca
Sem que o destino pudesse
De si mesmo pela vasca

Salvaguardá-lo em riste,
Conservá-lo de pobrezas.
Que situação mais triste!
A magia em flores pesas!

Cavar o chão em funduras
Sofregamente milita.
Cavou té que mais não pôde
Por cansaço em mor desdita.

Ia prum lado. Ia prum outro.
Mas sempre em contrário descia.
Se engrinaldando zombantes
Mossas de vil travessia.

Alfim, resolve o amor fati
Em sua redoma enaltecer.
Mais que tudo, ama a Vida!
- Sej'um Orco, sej'um Alcácer.

Em mente, transpôs Estados,
Mil existências engolfinhou.
Viajou bem mais que Colombo,
Psicologias estudou.

Decifrou a Metafísica
Só a ouvir o Clair de Lune,
- Após o quê, celífero,
De condição se fez Nume.

Mas uma coisa nefanda
De jeito o fez estrupício.
E fora tal o seu feito - que a
Vida virou um desperdício!

De inopino, descobrira
- Entre coisas mais a mais -
Também que o mundo relento
Incógnito é por demais.

O corpulento homem-sombra
Desfila pra frente lento.
Ao que o chão em desarrollo
Em contrário o volve lento.

"Que raiva que me dá meu Deus!,
A nunca deste chão sair
E sempre tombar e tombar
Chegando a lugar de rir."

Salvaguardá-lo em riste?
Amainá-lo de pobrezas?
Que situação mais triste!
A magia em flores pesas!

Sem nada mais dizer nada
Estátua morta fingira
Ser, de manha com Júpiter -
Ao que este o olhar lhe mira

E - só de pirraça - põe-se
Para com o Filosofal
De frente - em seu grande trono -
Cravando-lhe um crasso punhal.

Netuno ri-se às favas.
Cristo em leito dormitando.
Mozar' rege um carme allegro.
- E o mundo gira girando.

O corpulento homem-sombra
Desfila pra frente lento.
Ao que o chão em desarrollo
Em contrário o volve lento...

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Opus n.2

Esta arte que tendes vós em mãos. - Quanto vale ela? - 
Quanto vale ela? - Meu caro senhor poeta, 
Meu caro senhor museúnco das literaturas e das filosofias, 
Meu caro senhor professor autêntico da Academia das Letras, 
Especialista em Matisse, em Kubrick, em Mozart, em Pessoa.
Quanto vale ela? Quant'ela vale? Ela vale quanto? Quanto!?
Pergunto isto do que a vós mais a mim mesmo...
E isto desde quando nascera - ou de quando de mim me dera conta.
Nunca esta pergunta me saíra da cabeça. E afinal nunca sairá.
Porém soo fazê-lo sempre comigo mesmo apenas,
Num solilóquio tediento - às horas mortas da madrugada silente -
Em quando após com tanta porfia contra a arte eu me aventuro
Me dou conta - assim de repente - de que não sei eu
Nem mesmo qual a sua essência metafísica fundamental,
E muito menos a sua valia de grandeza ou de mediocridade.
E isto digo ainda - só se porventura possuem as coisas alguma essência
Que não a que imaginamos com tanta perspicácia em nossas mentes,
Enganando-nos todos, como que num tropel andante de fantasias,
De Zeus a Júpiter - de Júpiter a Jeová - de Jeová à Arte - e da Arte à Vida.
Ao que agora em desfile de naus pelas proas todas às escâncaras
A ressoar resplandeço - vivo - ufanoso - endiabrado - !
Como que todas pelos tambores das estradas equivalentes
Eu conclamasse cheio de litanias e canções das mais formosas
Para que vós doutos e mestres do intelecto pudessem averiguar
O quão dispersos e gratuitos estamos nós para tal prélio em veredas.
Porque fui um dia eu me engolfinhar na profundidade da arte -
Fui aquilatar a sua largueza - o seu imo peito de agravos e bravias
E de quaisquer outros vergéis mais que latentes e nitentes -
E descobri não mais que um papel rasgável feito de celulose,
Um material inane e branco destinado a receber pinceladas,
Um mármore oco que se não muito possui uns elementos químicos,
E umas parcas mentes e tão prenhes de torpezas que tudo risível se torna,
Porquanto cada sinfonia presente em tempo e espaço o é apenas em mente.
E além isto me dá tanto nojo que eu passo muito mal do estômago
E só mesmo consigo vomitar horas e horas a fio - de desgosto moral -
Sem atinar com nada a respeito das artes e de seus louvores
Senão pensar, desgostoso de uma existência tão contraditória e inaudita,
Que a arte não serve senão para nos embriagar de álcool e de drogas
Fazendo com que tudo se nos transvoe numa perfeita alucinação
E numa falta pouca ou muita de nitidez, em cujo meio vivem alguns deveras
Como se realmente Papai Noel existisse com toda a certeza do mundo.
Ao cabo do que me questiono se afinal o ser humano vive sem isso.
Podemos nós sermos nós sem uma certa embriaguez de metafísica?
Sejá lá indo aos shows, às macumbas, aos cultos ou aos psicólogos,
Para só assim pôr os dois pés no chão - sempre com grandes propósitos -
Sempre absolutamente donairosos e galhardos - olhantes ao horizonte -
E viver uma vida de merda - como se todos fôssemos deuses do Olimpo?
Ah!, meus caros leitores e literatos - quanta ironia me não cabe!?...

domingo, 18 de junho de 2017

O encontro

     O caminho pelo qual ele passa é sempre o mais do mesmo. Várias e várias pessoas circularam por ali, ensimesmando-se numa fala tropeçada e rouquenha, dizendo a si mesmas, constantemente, ali no imo do que se nunca encontra acesso público, que são especiais, que são peculiarzinhas e cheias de preenchimento e destino. E se por ora passam por capricho a apresentar em si mesmas algum erro ou alguma falha de índole, ainda que grave acabam dizendo para o espelho que é aquilo que as faz terem personalidade, e que quanto mais diferente se lhes encontrar essa tal "personalidade" adentro de si mesmas tanto mais queridas e melhores elas serão perante o vulgo, perante essa massa uniforme e cinzenta chamada vulgo - pela qual se é totalmente indiferente. E então, talvez muito por um defeito moral e metafísico, os homens acabam terminantemente presos em algo a mais. O que é este "algo a mais" e do que ele consiste eu não faço a menor ideia - talvez consista ele de tudo - talvez consista ele de liberdade - ou de maldade - ou de poesia e bondade - ou de nada - mas seja lá do quê for, e para o quê for, aquele homem que observo ali do outro lado da rua, a respeito do qual mencionei há pouco sobre o caminho, consegue, sim, sempre se erguer magistralmente adelante, a ouvir em fones de ouvido a Nona Sinfonia de Beethoven, sentindo-se quem sabe a melhor pessoa que o mundo pôde construir ao redor dum pleno marasmo de mediocridade. Com tais sentimentos tão símiles a vários dos demais, ele passa com arrogância na rua, olha com desdém as pessoas ao redor, nunca lhe passa pela mente que ali pela avenida existem almas, que existem vidas inteiras a fio que não descansam - que trabalham com honestidade, que roubam, que estupram, que matam, que são muito santas e também muito más, que são alegres, bonitas, simpáticas, nervosas, trágicas, cômicas, sórdidas - e para além também toda sorte de adjetivos que poderíamos elencar em cada um de nós, sem querer trespassar nisso um único estalo de lógica atuante. A nossa existência - e com isto discrimino esta que não se condiz com a linguagem nem com pinturas nem com obras de arte - a nossa existência pífia - esta que não comporta nenhum adjetivo intrínseco, e exatamente por isso consegue comportar qualquer coisa - quer queira, quer não, ela está sempre perto de nos tocar com a sua filha mais repulsiva. E foi exatamente isso que aconteceu com aquele homem. 
     De repente, uma sensação de ansiedade palpitante começou a aferroar-lhe o peito sem nenhuma razão aparente. Parecia que o seu coração queria fugir dali correndo para algum canto escondido - a sua enorme felicidade que lhe transbordava num instantezinho anterior rapidamente fizera-se nuvem, e de nuvem fumaça, e de fumaça fuligem. Sua respiração começou a ficar entrecortada, ele não sentia mais vontade de voltar para casa, e por isso parou, parou ali mesmo, no meio de uma praça onde muitas pessoas havia, e deixou de lado todos os seus pensamentos, para ficar só com aquela multidão extraordinária, "um empastado de seres que foram compostos pelas mãos de algum ser misterioso a que ninguém tem acesso", pensava consigo. Todas aquelas cores fortes e graciosas de outrora prorrompiam agora num embaraço tremendo de indefinição e tontura. 
     Segui em sua direção e sentei-me logo ao seu lado, num banco da praça. Dia claro, domingo perto de fim de ano, as nuvens todas cheias e saborosas percorriam um céu translúcido e azulado. Coisa estranha, toda hora que os nossos olhos se encontravam porventura, um de nós, sem pensar muito e de modo um tanto ligeiro, desviava o olhar como que com muita vergonha do outro. Eu - eu sou um menino simplório, uma criança como qualquer outro adulto, idiota igual também, manhoso a gozar um pouco a vida sem grandes compromissos, sem graves compromissos até de se ter de gozar plenamente a vida, amante formidável dos livros, das músicas, do amor, do sexo, da amizade e das crianças. Já ele - ele é um poeta-para-si, um grande-gênio-para-si, um glorioso super-homem, dono de si mesmo de um modo até estranho, rispidamente arrogante, solitário, querendo ser o melhor em tudo, até querendo ser melhor que os outros no que tange aos defeitos, e por isso sendo zombado até pelas pulgas por causa de sua pretensão. 
      Nós trocamos pois mais uma vez uns silenciosos olhares...
     É curioso - eu estou aproveitando a praça, as crianças que por ela passam, os mendigos mesmos, o som abafado dos carros, as buzinas, e tudo isso me representa de certa forma um concerto, não diria que mais sublime que as sinfonias de Beethoven, por razão de serem duas coisas em muito distintas, mas mesmo assim tal concerto teria lá as suas valias - assim como a imagem que se me pinta ali naquele momento não é em nada uma pintura transcendente de Césanne, mas também nunca deixa de ser tão maravilhoso e perfeito quanto o seu grande pinheiro. São coisas diferentes, eu bem o sei - mas a poesia, o mistério, o divino, o além-do-real, o além-do-sensível, o metafísico, a nossa subjetividade mesma - cada coisa dessas se encontra ali escondida, seja na arte, seja na vida, num tergiversar constante do real. O homem austero então olha para mim, eu olho para ele, finalmente encontramo-nos com os olhares, e assim ficamos nós durante dois minutos ou mais, sem falar nada um para o outro, apenas um contemplando placidamente o outro sem mais nem menos. Às vezes eu dava umas risadas, ledas e acanhadas risadas, e ficava com um bom humor carregado no meu rosto singelo e nipônico, e ele me observava com ódio. O peso imenso que carregava em cima de suas costas deveria ser insuportável. Ele esboçou retrucar a mim o meu sorriso, alguma coisa odienta e purulenta, mas ficou quieto, ouvindo ainda Beethoven com os seus fones de ouvido. Eu, numa insolência despensada, claro que cheio de vergonha, resolvi por conseguinte tirar-lhe os fones de ouvido, e assim o fiz num átimo. Falei-lhe depois, com uma meiguice até estranha:
     - Olá, irmão. Como estás?
     E ele ficou estático, e lentamente começou a mudar de forma, talvez por causa da leveza de minha aparência, ao mesmo tempo em que eu mesmo também passava a ficar mais pesado ao vê-lo, mais corroído por dentro, e era como se as nossas ambas energias totalmente opostas entre si se misturassem e dessem forma a algo intangível e cheio de sutilezas, ao que eu finalmente lhe discorri, dum jeito amaneirado e agradável, como se aquilo que eu estava prestes a falar estivesse entupido há muito tempo em minha garganta:
     - Eu te amo, irmão. Tu to não sabes ainda, porquanto não o compreenderias, mas eu queria lho falar: eu sou tu, e tu és eu, e por isso eu lhe falo assim tão sincera e abertamente. Eu te conheço tanto quanto a mim mesmo, dado que este mim és tu. Pois por mais diferentes que sejamos podemos nós formar um todo unido, e isto é incompreensível logicamente, eu sei, mas é mesmo assim alguma coisa bonita. Tu entendes isto? Este mundo por exemplo: ainda que hórrido e burlesco, sem as crianças que ele contém seria algo horrível na minha opinião, careceria de algo imprescindível. Da mesma forma nós - se cada um de nós não tivesse uma criança choramingona dentro de si, uma criança ingênua e descuidada, que necessita de um consolo, de um carinho, de um algo a mais, de um regaço para chorar e se entristecer - o que seria de nós?, o que seria de cada um de nós, irmão, sem isso? Se cada um já nascesse por si só um super-homem, e nunca houvesse peso algum na consciência nossa, e a angústia e o nada nunca nos esquartejasse com a sua catana sangrenta os nossos corpos, a nos destroçar todos, o que seria de cada um de nós? Seríamos Deuses de fato, com certeza, e seríamos felizes, tu responderias - mas digo-te que para mim ser um Deus é ser quase um robô, um estúpido e insensível robô, que possui a resposta de tudo, e nada na sua consciência o faz nunca mudar de ideia, e ainda ele estaria terminantemente certo, e nós todos estaríamos também terminantemente certos de tudo, pois qual seria a graça disso tudo?, que liberdade teríamos nós perante isso?, e o quão estúpida não seria a nossa poesia se nós não fôssemos livres? Talvez estejas mesmo certo, seria melhor que não houvessem crianças nem vazio dentro de nós mesmos, que fôssemos todos auto-suficientes por nós próprios - mas eu digo que se isto fosse realidade estaríamos presos num ponto inócuo e tépido, não haveria o que mudar, meu irmão, e nós morreríamos de tédio, de indiferença e de tédio, assim como nós, eu e você, seríamos outrossim por demais simplórios se houvesse apenas eu ou apenas tu. Entendes isto tu? Por isso que formamos nós, de forma mesclada, na verdade uma só pessoa. E, irmão, eu lho digo com sinceridade, isto é belo, isto é terrivelmente belo.
     Depois que eu acabei o meu discurso, alguns pontos pequeninos de lágrimas fragilizavam-lhe o rosto antes sério e sisudo. Ele ainda não falava nada. Às vezes me olhava, às vezes olhava para as árvores, para as pessoas, mas nada o fazia querer sair dali, talvez até quisesse me expulsar, pensando que eu lhe devotava uma série de bobagens. A ideia do suicídio certamente lhe revolve a mente, eu pensei, nada o fará voltar ao nosso mundo por enquanto, e tudo o que eu falar talvez não passará de mera idiotice. A não ser uma palavra dócil de conforto, dum grande amigo ou dum grande amor seu - a não ser isto, ele nunca voltará ao nosso mundo. E, o que é pior, ele está mais perto da verdade da natureza do que nós mesmos, assim como G.H. diante da barata.
     Num instante, ele arregala os olhos, prensa e chacoalha as duas mãos firmes em seu rosto, solta um suspiro profundo e amargo, e me diz com olhos silentes e marulhantes:
    - Às vezes nós precisamos nos deixar cair dentro de nossos próprios abismos para ter uma noção do tamanho desse abismo que possuímos adentro de nossas almas. Eu acho muito ingênuo teorizar algumas coisas que nos rodeiam e nos cercam, como por exemplo o que você mencionou no começo desse conto-poema, a respeito de eu me achar uma pessoa peculiarzinha. É claro que você está certo, mas eu te preveniria de escrever tanto sobre tais coisas como se você fosse muito maior do que tudo isso, e todas as pessoas para as quais você olha fossem apenas objetos de estudo inferiores a ti, entende? Ocorre que você, ainda que use dessa sua linguagem toda requintada para se comunicar comigo, com ideias muito sábias puras e espirituosas - você talvez também não saiba o que é sentimentalmente entrar nesse vazio horroroso no qual estou presente agora. É muito fácil para você discorrer sobre tal e tal coisa a respeito dos seus assuntos intelectuais, sejam eles sobre pessoas ou coisas, mas quem está sofrendo de verdade não és tu, sou eu, são as pessoas, e elas todas têm vidas, almas, sentimentos, sensações, poesias, família, amigos, insignificâncias, elas todas possuem tudo isso e você não sente um pingo do que elas sentem, porque simplesmente você não é elas. Vá lá que tu sejas mesmo elas como um homem abstrato e universal, como que numa fórmula matemática, mas mesmo assim não é você que foi estuprado, que foi arrogante, que ficou angustiado até a morte, que sofreu por escassez de dinheiro e comida, que foi acintosamente medido e desprezado. Não - você é você, e elas são elas. Como você mesmo é dono desse conto e eu estou submisso a você na hora em que o está escrevendo, então eu não posso fazer coisa alguma, e você ficará sempre (permita-me o uso do sufixo) você ficará sempre superiorzinho a mim, em todos os momentos em que escrever as suas estórias, tomando-as todas como a descrição da "verdade" das coisas. Ocorre que eu não acredito em verdades, e muito menos em Verdade. Eu sou sórdido, estúpido, angustiado, arrogante, mesquinho, tosco, contraditório? Sim, eu sou!, e não escondo isto de ti, e ainda isto por orgulho, e para ser melhor do que todos os demais!, porque na minha cabeça quem esconde essas coisas é que é o inferior!
     No final de seus dizeres, algo então se apossou subitamente de meu espírito, e a coisa toda se invertera num repente, pois que no exato momento em que ele dissera tudo aquilo ele se sobressaíra perante mim, e eu é que fiquei prostrado diante de seus pés, ferido no orgulho e ridículo. Ele então começou a gargalhar estrondosamente diante de mim, soltando vários risos sarcásticos, e sabendo que ele mesmo era eu, e portanto tendo um prazer especial em me ver sofrer, em se ver sofrer, em me ver ferido, em se ver ferido em seus sentimentos superiores. Ele, ou melhor, eu, tínhamos nós um grande prazer em nos ver sofrer. Passamos portanto nós dois ao terceiro momento de nossa estória - o no qual nós dois nos demos então um beijo ardorosamente apaixonado na boca um do outro, e falamos assim, meio berrando para todos os presentes da praça em que estávamos, em meio aos nossos risos ferinos, como se compreendêssemos de repente o lado cômico da vida trágica:
     - Glória ao Altíssimo! Glória ao Satanás! Glória à vida por inteiro!, sem desconsideração por nada, por nada, pois que tudo merece atenção, tudo merece ser contado, tudo merece ser notado, tudo é importante para nós humanos, na arte como na vida. Tudo, tudo, tudo! Que tudo nos contamine e nos destrua e nos encante! A-amém!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Serenata

Donde o pianista exprime aos seus cuidados
A mensagem sumamente indecifrável
Duma cantilena qualquer desconhecida
Aparece alguém por detrás dos vidros
O rosto em grandiloquência
     - As mãos trementes.
O luar é um sortilégio feminino - diz -
É o que se não pensa - é o mistério
Das águas mornas flutuantes
Além das quais se já não vê
Nem se enxerga o mínimo estalo,
Porém o som -
     O som deste o tocas tu
Como se apenas olhando entrecostasses
     No universo nosso por inteiro.
Ó pianista qu'eu desconheço,
Continua a tua serenata
De cuja essência desconhecemos.
Continua - porque me não suportaria
Que a mensagem tua indecifrável
Contivesse de si mesma dentro nada
Que não quimeras de nossos sonhos.
Continua - meu caro maestro d'poesia,
Pois nós nunca suportaríamos viver
Sem a metafísica de tua linguagem.
Porquanto sem ela morreríamos -
E ao morrermos
     Tudo poderá morrer conosco.
Mais me vale acrescentar-me pois
A angustiar-me perante este mistério.
O mistério?
     Ora, não adianta imaginarmos-lo,
Basta que se ouça esta enigmática sonata,
E que nela mesma nos confundamos...
O dia passando sem mais nos vermos
E a vida sendo outra que não a vida.
Basta que pensemos
     Que somos muito mais do que somos,
     Que tudo seja mais do que é.
Pois Fernando Pessoa já se acrescentava
No simples e ingênuo manejo de linguagem
Com algo mais a mais para a sua vida
E a sua vida nunca fora apenas a sua vida
Por causa d'seu constante fruir d'som do mistério
Apenas em se usufruindo das palavras.
(Porque as palavras por si só contêm metafísica,
Isto Fernando Pessoa deveria já notar.)
Ouçamos então este som d'piano!
Como se fôssemos crianças à beira do riacho
Espantadas todas com este ouvir lânguido
     Do que se não entende
     Do que se nunca entenderá
E vivamos a vida a mais que a vida
     Sem hesitar em sorri-la o mais das vezes
     Sem hesitar agradecê-la sempre
Por podermos nós escutar esta voz sombria
Esta voz sombria e vislumbrante do mistério.

domingo, 14 de maio de 2017

Opus n.1

Eu sou um literato, moça - e um homem doente - e nada mais. 
Tu querias que eu fosse o quê - afinal? 
Os meus personagens? Os meus poemas? A minha pobre poesia metafísica? 
Qualimagem tu tinhas por acaso dumscritor? Aqueles seres oníricos - santos.
Belos, bem-vestidos, escanhoados, sentimentais, loucos por amor.
Oh, não! Ou tu querias que eu fosse que nem aquele doido ressentido? 
Aquele que falava assim: Merda! Sou lúcido. - Ou... 
Arre! Estou farto de semideuses! / Onde é que há gente neste mundo?
Qual tu querias que eu fosse? - Hein? - pobre rapariga - 
Vens toda cheirosa aqui à minha casa pedir um autógrafo - 
Tu pensas por acaso que é quem?! - Cof-cof-cof - Vir aqui assim,
Sem mais nem menos, toda produzida com este decote dos infernos! -
E eu estou agora cá bêbedo de absinto - Há! há! há! -
Tanto bêbedo que seria capaz até de me suicidar aqui mesmo, num ato,
Que tal? Farias isto por mim? Pegarias este revólver e mo apontaria 
Calmamente nesta minha testa miúda de romancista idiota? Vou lhe dizer
Igualzinho tal qual a poesia, para ver se te interessas mais:
Leda face mais pura dmeus encantos, / Virgem minha Lídia eu renasci,
Poderias por obséquio conceder-me agora / A honra de ser morto por ti?...
Ah!, agora esse mesmo semblante assustadiço de sempre,
Estas pessoas não crescem nunca... Sempre acham que somos uns santos
Muito diferentes desses nossos personagens que descrevemos por aí.
Sempre se acham umas inocentezinhas - e esta é talvez a maior das inocências!
Bem... bem... bem... (.............) Quá-quá-quá! - Pois não? - O que tu queres?
Queres transar? Te apaixonaste por mim por acaso em algum bordel?
Vieste aqui trazer-me e oferecer-me toda assim ao meu bel-prazer?
Pois que eu te digo e te repito, e te repito tantas vezes quanto quiseres:
Eu sou um homem doente. Mas não sei que doença é essa,
Talvez loucura eu não sei. Certo dia me viram agarrado em um cavalo,
Me levaram pro hospício, mas eu de lá fugi todo estropiado...
Em que mundo estou vivendo?, minha pobre rapariga, me diga...
Sabe que as pessoas em geral costumam acreditar que a gente é génio?
Isto é engraçado - porque o assunto é apenas que lemos aos diabos
E temos todo tipo absurdo de referências para esconder do nosso leitor.
Qual! - Lê tu o tanto quanto lemos - e o quê lemos - e verás por ti mesma -
O que é a literatura - mundo mágico onde nunca se necessita precisar fonte -
E veja por conseguinte os plágios se catatonizando que nem feras no circo!
É um espetáculo! - Quá-quá-quá! - Se soubesses tu nem admirar-nos-ias.
Que isto fique entretanto apenas entre nós, pobre moçoila - Aliás...
Quem és tu? - Donde vieste? - Onde estamos agora? - Que é'ste breu tenebroso?...
Arre! Com os diabos! - Cof-cof-cof - Aquele sujeitinho ali fica me olhando
De um jeito vil, de um jeito torto e enviesado - o que é que ele tem, hein?
Será que ele estará nos julgando, nos fazendo peixe de sua isca?
Será que ele estará rindo de nós dois - ou apenas de mim mesmo?
Quem ele acha que é? - me olhando assim desse jeito - com tanto desprezo.
Eu estou lendo na sua torneada face: "Como é ridículo este sujeito!
Um idiota!" - Merda, merda, merda!... Garçon! Traga-me mais um absinto!
Esta moça me não quer matar! Sua puta! Mas o dia é hoje! Deixe-me!
Eu faço isto. O dia maior de todas as minhas glórias!
De todas as glórias de um idiota! De um verdadeiro ressentido!
Deus, olhas Tu por acaso com benevolência aos grandes ressentidos?
Pois que deverias - muitos desses fazem História!