domingo, 17 de setembro de 2017

O riso

     Não se sabe qual foi o riso que primeiro se deu. Não se sabe também se foi um riso mesmo, ou se foi uma gargalhada, ou se foi apenas uma breve inclinada no canto da boca,  um desses risos leves que não se querem à mostra, olhos que sorriem singelos, orgulhosos. Também não se sabe quem veio primeiro: se o riso ou a boca do riso, ou ainda o homem da boca do riso. Pois pode até ser que o riso tenha vindo antes do homem. Tudo o que se sabe, no entanto, foi que o primeiro riso se deu. Mas não era qualquer riso. Era um riso de mofa. Um riso de desprezo. Um riso educado, que substitui a sinceridade, mas que possui uma violência mais impactante do que uma punhalada. Desferido no inimigo, ele encalca um ferro na consciência, deturpa os humores, ressalta a angústia do mais fundo do ser. Desentranha de nós uma espécie de verdade que poucos são capazes de verdadeiramente suportar. O coração dói, mas não fisicamente, tão-só representa um desconforto moral. Uma picada doída no espírito, como se uma cobra imensa o estivesse sufocando. A pessoa, quando vê o riso, — se é que é párea para entrar em contato direto com ele, tamanha a sua força e vivacidade, — só é capaz de pensar em uma coisa possível: o suicídio. E isto porque, não importa a circunstância, — se ele, o riso, se mostra à tona, nada na vida faz mais sentido. Tudo se torna uma única coisa uniforme, desprezível, e o pouco que há de solução é cobri-lo com um véu espesso, tão grosso quanto se é necessário para deixar o riso bem lá no fundo do ser. O riso então, como tudo o que se afoga, tentará subir violentamente, como se prestes a morrer sufocado estivesse, mas que nunca morresse de fato, sem antes com isso levar a pessoa que o carrega. Você tenta deixá-lo lá no fundo com os dois pés encalcados, para matá-lo de vez, mas aquela energia não se esvoaça enquanto você mesmo estiver respirando. Ou seja,  enquanto você não se afogar junto com ele, ele não deixará de o importunar.
     Você então descobre uma saída. Já que o riso não te larga o pé, você o chuta para escanteio, e o impurra de todas as maneiras para o seu vizinho. Não o vizinho que você ama, mas o que você odeia. Você assim se sente livre e liberto, — corajoso para mil aventuras, — porque afinal a solução se deu com facilidade tremenda. Mas eis que um outro homem surge, e com ele vem outro riso, o segundo, e com o riso a solução do riso. Ele pega o seu riso e o manda para você. O empurra com brutalidade, de tal maneira que aquilo te faz afogar, te deixa sem ar, e aquela sensação novamente brota com presteza ao novo dono. O problema se instaura novamente. E depois desse segundo riso veio ainda o terceiro, e o quarto, e o quinto,  e assim infinitamente, um após o outro, em cadeia, sem obstáculo que os pudesse conter. Um jogando no outro o riso d'escárnio, como se guerra fosse de todos contra todos.
     Chegou uma hora, descobriram que a força tão-só não é capaz de empurrar o riso de um para o outro. Porque o mais forte sempre ganhava de todo mundo. E assim, como num jogo de xadrez, a estratégia de um senhorzinho fora se utilizar do intelecto para com ele introjetar o riso nos outros. E também com o intelecto criar uma barreira nova que pudesse conter toda espécie de riso que viesse de fora pra dentro. Deste modo, com efeito, durante um bom tempo este senhor se apoderara do trono onde riso nenhum se acomodava, nem podia se acomodar, e onde nada enfim o pigarreava. Mas os demais, tão furiosos ficaram a respeito, que resolveram se unir todos para acabar com as barreiras daquele senhor,  mas tal era a força da barreira dele, que mesmo com essa união de risos esta não se destruíra. A solução, então, (outra resposta afinal não havia), fora condená-lo a beber veneno. E, se riso nenhum conseguira entrar dentro do senhor, diz-se que a própria barreira servira de alicerce para a aniquilação completa dele mesmo. A barreira o havia traído. Traído a ponto de o matar.
     Até hoje, os homens lutam contra o riso. Alguns dizem que o riso já havia antes da boca, e portanto antes do homem. Disso não se tem certeza, mas parece que ele é anterior ao homem, — digo, o homem a ele não se sobrepõe. E depois observaram que o intelecto também não é útil para fins de o exterminar. Que, ao contrário, ele às vezes até aniquila o próprio homem, como aconteceu no caso daquele senhorzinho simpático. A maneira mais eficaz, entanto, que se criou para o suplantar, fora a imaginação. Os homens passaram a criar fantasias de seres invisíveis que fizessem de conta que o riso fora mandado para fora deles, ainda que ele estivesse presente ainda no seu cerne. E, se tal não era possível por causa da lucidez do sujeito, a fantasia tornava-se o próprio sujeito, que com o apoio da imaginação fazia pensar que o riso estivesse fora, ainda que estivesse dentro. Ainda, o que é mais curioso é quando o sujeito se utiliza de "demonstrar" o riso para os outros, e nesse ato mesmo o joga rapidamente a eles. Pois que até isso a capacidade inventiva humana fora capaz. E imagine então o quanto de peripécias já se não utilizou para tal fim. Isso sem falar dos que sobre ele escrevem, como eu o estou fazendo agora, como um meio próprio de tirá-lo de mim. E mesmo você, caro leitor, que busca conhecimento nos livros eruditos, também para tirá-lo de ti, ou a jogar para o nada (pelo qual sempre volta), ou a jogar para os outros (pelos quais sempre volta). 
     Parece mesmo que isto, o riso, seja uma contundente marca nossa de nascença. E portanto, — se por acaso você queira tirá-lo de ti, infelizmente nem mesmo o conhecimento disto tudo que agora descrevi o poderá. Talvez o riso perdure para além de nossa espécie humana. Talvez ele esteja presente também fora da Terra. Talvez isto seja um aspecto geral do universo. Mas isso são só teorias.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

O curioso caso de José Capote

Os demais  em seu derredor  não possuem nunca o Capote.
Só mesmo José possui o Capote. — Só ele,  e mais ninguém.
Todo o resto do povo é uma raça desprezível para José.
José apenas,  após muita vitória e derrota,  conquistou-o.
E ele o conquistou facin?...  Não,  conquistou ele fácil nem não.
Deixou, por si só, uma vida inteira pra trás,  sobrando é nada!.
Veio assim todo franzino, mortiferado, alvo rotineiro de mofas.
E ninguém não via José nem não!,  e dentro dele aquilo o-consumia.
Inveja tinha das pessoas, e muita  ciúmes acumulava dentro de si.
Toda uma feitiçaria de cabisbaixeza o ia sovando com brutalidade.
Afinal, metáfora sendo,  era ele negro, em meio de gente branca,
E ele era branco,  em meio de gente negra. E ele era bem-doente, 
Em meio de gente bem-sã,  e além do mais muito lúcido e saudável,
Em meio de gente míope e enfêrma.  De resto, questão não esteve
Nem nunca no ele-em-si mas na relação do ele com os outros.
Tudo isto sendo apenas transcrição de pensamento dele e mais nada!.
E isto por acaso tira pêso de si mesmo?,  culpa ele não tendo?.
Não disse eu isso, madame culpa todos temos nós, perante todos.
Mas que pena!,  podia bem-quê, aproveitar um oásis de vida. 
Pois podia, não podia?,  E ele, um idiota, sempre pensando assim-
-Assim:  que êle, não nasceu pra isso, nem pra sexo, nem drogas,
Nem rock-and-roll.  Não, ele nasceu para um único fim: o Capote!.
E depois, muito tempo depois, em saindo do vulgo, quê fez ele,
Após conquistar finalmente o Capote?. Feliz ficou por acaso?...
Dizem que virou um empecilho, madame, um traste, um toleima,
Falam até mesmo que ninguém o suportava. E ele sempre vestindo
O-Tal seu Capote, enchendo-se afinal de grande orgulho ufano e gabo.
 As pessoas todas sorríam-lhe mentirosamente, cuspíam-no deveras
Sempre quando virava as costas;  ele achando ser o Tal, o Tal-Quê, 
E os demais,  em sua humilde choça denominados vulgo, 
Punham-se cada-quais a melhor das máscaras, as que mais sorriem
Naturalmente, habilidade muito melhor dedilhada que a de Capitu.
Quer tu, leitor amigo, um caso, um exemplo real, e não este fictício?.
Jean Cocteau: "Victor Hugo era um louco que se achava Victor Hugo".
E o Capote?,  saiu, por algum acaso, das mãos de nosso José?.
As recordações poucas que lhe restaram na História dizem que não.
Discorrem, é bem da verdade, de uma doença mental específica,
Própria talvez ao personagem Dom Quixote, enfermidade curiosa
A respeito da qual muito tem-se de escritos, mas pouco de solução.
Pois que o caso era que,  durante sua estadia neste mundo, 
Inúmeros outros seres humanos possuíam também o Capote,
E esses outros, pelo menos em exteriormente se falando,
Eram bem mais humildes que o nosso José,  diz-se isto mesmo, 
E as pessoas os gostavam sobremaneira bem mais, exímios
Cidadãos sendo,  comparados a Sócrates e a Kant,  para quem
Os livres apetites e as inclinações naturais nossas deviam de ser
O possível-maior conduzidos pelas rédeas da razão filosófica.
Mas o xis em cheque da questão se dera somente em quando José,
Com toda a sua prepotência desarrazoada, se deu conta,
Sub-repticiamente, num momento vertiginoso,  Hugo sendo, 
Que ele não era o único a possuir o Capote,  Que as costureiras,
Com quem havia firmado um pacto-contrato restritíssimo,
O-haviam traído em troca de suborno, dinheiro este gracioso,
Muito mais volumoso que o com que havia pago José a elas.
E daí, de repentemente, como dizem as pessoas pelos rotineiros,
José cai bruscamente do cavalo de Napoleão, a cem léguas de distância
Do chão,  E então é espezinhado por um bando de calhordas
Que o vituperam publicamente de interesseiro e egoísta,
Dono de uma alma tremendamente ególatra e megalomaníaca,
Por cujo entremeio passam a chalaçar aquele estúpido Capote.
E, como se nada disso lhe bastasse, ficou ele, de inopino, pobretão.
Contam ainda alguns livros que, desta maneira, sem eiras nem beiras,
Dias atrás dias encafuado em seu atro-antro das bebedeiras,
Resolveu compor um livrete de memórias da vida a respeito,
Um compêndio vagaroso de suas ideias e de sua "inútil vida",
Ao final do qual,  um dia empós o término de sua escrita, 
Pegou uma pneumonia pelo vento trespassado pela sua janela,
Adoeceu desumanamente, sozinho e solitário num quartinho escuro,
E faleceu uma semana depois.  "O que fizeram com o corpo?".
Fora ele mandado para a nossa Faculdade de Medicina, ao fim
De ser estudado pelos nossos futuros médicos,  proveitosamente.
A senhora me pergunta:  "Mas ele nem amigo nenhum não tinha?".
Ao que eu digo:  "Tinha,  mas era um tanto quanto artificiôso."
 "Mas o que aconteceu no demais, no futuro disso distante?".
Bem,  tenho eu já conjecturadas as minhas poucas hipóteses.
O que eu disso prevejo é que o seu caso seja,  primeiramente, 
Estudado em termos de doença mental peculiar, à la Dom Quixote;
 E depois, num momento qualquer, alguém lerá aquele livrete,
Talvez um crítico literário ou um escritor, e enxergará deverasmente,
Naqueles textos profanos muito bem fundamentados,  a sua Defesa!, 
Porquanto era José de uma intelectualidade sem-tamanho,
Enxergará ali uma "genialidade dexorbitável, deslimitada e divinosa",
 E assim-assim, do nada, todos-mundos aplaudirão José Capote,
O-desculpando de toda a infâmia pela qual passara em vida,
E o-restituindo ao posto-mor de "dono único do Capote",  em eternos.
Ao lado respousará, enfim, dos demais Deuses magnânimos do Olimpo!
E assim nós, portanto, o vangloriaremos,  antes de mil outros Josés, 
Um após o outro, enfileirados, a patrulhar os seus respectivos Capotes.