terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sobre a Literatura

     Constitui demasiada pretensão querer discorrer sobre assuntos tão gerais como este - a tal da Literatura - a sua essência enfim - e isto penso ser assim para qualquer pessoa, seja esta culta ou não, seja esta entendida em assuntos tais como filosofia e literatura ou não, seja esta famosa intelectual ou não. Mas, de qualquer forma que seja, alguém o deve fazer, e para tal é sempre recomendável recorrer ou aos clássicos da Literatura em si, ou aos clássicos da crítica literária, esta estando composta por filósofos, escritores, acadêmicos e críticos. Vir perambulando pelos campos e bosques verdejantes atuais, os que contemporâneamente mais vendem e se destacam com chusmas de holofotes por todos os recantos e larguezas, sustentando livrarias e editoras, por mais sonoros que sejam, novinhos em folha, prontos a serem degustados com regalias e louvores, aplausos que não nunca não acabam, nada disso recomendo ao muito se em comparamento, e nem mesmo os meus textos julgo estar minimamente entre os recomendáveis, e isto não por orgulho de humildezas, mas que perfeccionista sou até aos sangramentos, até às torturas. Escrevo muito por efeito de treinamento júbilo e alegria, coisa sem a qual eu não posso passar nunca e nem mesmo viver, e no entretanto a cada dia que passa pela corrente das semanas mais consigo odiar e achar ruim os meus próprios trabalhos, feitos estes anos ou semanas atrás. Não obstante tudo quanto escrevi agora mesmo, discorrerei um pouco sobre a Literatura, o que eu sobre ela penso, sua relação com a Filosofia, e coisas afins tais quais.
     O assunto primordial e primeiro sobre o qual devo obrigatoriamente falar, com o qual começo todo o encadeamento lógico, é a sua relação com a Filosofia - e portanto com a Verdade, com as verdades, com a Realidade, e com as realidades. Para se ter uma noção geral disso a respeito, há-que-se averiguar, linguisticamente, a estrutura frasal mais simples e precípua do que aprendemos na escola: qual seja, a frase sujeito + verbo de ligação + predicado (separo verbo de predicado por acinte). Esta análise provém de Aristóteles, e nos pode delinear um pouco mais o caminho pelo qual quero levar a fazer entender a Literatura. Diz-se que: o predicado constitui tudo quanto é atribuído ao sujeito, seus ditos acidentes, ou fenômenos, ou tudo aquilo que vemos e nos é transmitido pelos órgãos de sensações e sentidos, internos ou externos, com os quais viemos a nascer neste mundo. Nós todos temos contato directo ao predicado, por estar aí posto, exatamente na nossa frente, neste computador, neste celular, neste papel, nesta pessoa ao lado que amamos, no poema com suas letrinhas, e etc etc. Para mim, é como se o ponto de vista estivesse bem próximo de nós, não o nós-geral, mas o nós-individual, cada qual de per-si, sendo-nos fácil compreendê-lo, nos atingindo directamente, e portanto muito mais perto do chão e solo estando, e mais perto também da vida sensitiva e desfrutável. Entanto, o problema maior está nos dois primeiros, isto é, no sujeito e no verbo de ligação - o qual se mergulha e se afoga no mundo das essências, nas ditas realidades objetivas, na substância, sem interferências nenhumas de qualquer subjetividades que possam deturpá-la. A título de exemplo, pensaria numa dada pessoa, esta rodeada de amigos e inimigos, presente no escritório, na casa, na faculdade, na rua, nos bares, no em-si-mesma, sendo que cada qual destes seres que a rodeiam possuem uma experiência particular e única com ela, aventando-lhe ter por essência uma determinada ideia colocada de por-já em suas cabeças de antemão. Um sujeito, por exemplo, a acha arrogante, outro a acha legal, outra esquisita mas santa, outro uma excelente índole, outra uma hipócrita, e por aí vai, aos infinitos, se elencando cada predicado a ela carregado de acordo com a experiência que com ela se teve de cada um por cada um, diferenciando-se seja por distância no espaço, seja por distância no tempo, seja por distância no âmbito psicológico-social. A Filosofia, a saber, procuraria desvelar qual a essência dessa pessoa, em todos os tempos de sua vida, quando criança, adolescente ou adulta, e em todos os lugares por ela frequentados e habitados, seja externa ou internamente, sem a estar vendo de modo parcial. E aí está posto, então, o grande problema metafísico, complicadíssimo, sobre o qual os filósofos se debruçam com severidade e disciplina de cientistas e geômetras, desde o mundo antigo, mas que dificilmente conseguem descobrir algo com a mesma cientificidade clareza e certeza com que a matemática e a lógica faz as suas deduções. 
     Tudo isto digo por quê. Tomando uma esta ideia de Tzvetan Todorov, crítico literário francês, compreendo que a Literatura está presente muitíssimo mais perto do ponto de vista humano e terreno nosso, em contraposição com a Filosofia, que tenta árduamente se despregar deste chão e colocar o ponto de vista no além-humano, no ontológico, muito longe da Terra, como se Deus falasse do alto sobre nós aqui presos ao solo, para assim tornar as coisas muito mais certeiras exatas e objetivas no seu julgamento, abrangendo todos os seres humanos, a Natureza e, enfim, o Metafísico. São dois campos de escrutínio semelhantes, diz-se, mas com perspectivas diversas, muito longe uma da outra. Para efeito de analogismo, penso estar a Literatura presente muito mais no lado do predicado, e a Filosofia, no lado antípoda do sujeito e do verbo. Diz Heidegger em uma de suas conferências: "Entre ambos, pensar e poetar, impera um oculto parentesco porque ambos, a serviço da linguagem, intervêm por ela e por ela se sacrificam. Entre ambos, entretanto, se abre ao mesmo tempo um abismo, pois 'moram nas montanhas mais separadas'." Ora, o grande empecilho de tal pretensão da Filosofia é que ela é feita por um ser humano, e isto muito problemático se torna para efeitos de estudo. Resume isto numa nota de rodapé Hannah Arendt no livro A Condição Humana: "... a resposta à questão 'Quem sou?' é simplesmente: 'És um homem - seja isso o que for'; e a resposta à questão 'O que sou?' só pode ser dada por Deus, que fez o homem. A questão da natureza do homem é uma questão teológica tanto quanto a questão da natureza de Deus; ambas só podem ser resolvidas dentro da estrutura de uma resposta divinamente revelada."
     Agora, novamente a frase reescrevo: tudo isto digo por quê. Se se quer uma análise realmente obliterada de quaisquer subjetividades, um pensar e um revelar da Realidade-em-si, ou seja, se se quer ver uma dita Verdade, um ser, uma substância - o conselho máximo é que se procure muito mais a Filosofia do que a Literatura, e mesmo assim a primeira tergiversará dos seus apelos sem mais nem menos, não por culpa de negligência dos filósofos, mas muito pela incógnita sutil que se é isto tudo. Mas, no entanto, se se quer se aproximar um tanto da vida e de seus louvores e estranhezas - há-de-se afogar na Literatura. Mas a questão, sempre, é não se apropriar ao demasiado desta última tal como se ela estivesse nos dando a Verdade absoluta das coisas, pois isto nem mesmo a Filosofia ou a Teologia consegue nos proporcionar. Como exemplo, tem-se a frase de Clarice Lispector, no livro A Hora da Estrela: "Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só." Ora, sob um âmbito geral filosófico, exigiria-se uma tônica de argumentação para se sustentar isto, não é algo que todos concordariam. Mas, mesmo assim, nada na Literatura é um tanto em vão, não sendo como se ela apenas mentiras e superstições frívolas proclamasse. Porquanto, apesar de tudo isso, de todos os problemas concernentes à Metafísica, nós, com a passagem livre com que os livros de contos romances e poemas nos oferecem acesso, e ainda mesmo a música a pintura e o cinema, com o choque de se nos apresentarmos aos mais diversos e contrastantes predicados, com tudo isso, nós conseguimos ao menos algum gosto da essência metafísica quiçá sentir. Igual que Fernando Pessoa - tão contrante este, sob a figura de Alberto Caeiro, à ideia de que as realidades constituam uma Realidade só, uma dita ideia-geral - em seus solilóquios merencórios se estonteia, agora sob a égide de Bernardo Soares, com o talvez de que possa ele mesmo, da criancice e da juventude à idade adulta, ter sido o mesmo - ou seja, algo pode haver que nele não mudou. Da mesma maneira quanto à Vida - da mesma maneira quanto à Literatura - vemos constantemente que os problemas na verdade são parecidos e não mudam em muito, constituindo aquilo que chamamos de Literatura Universal, tal como se a ideia do eterno retorno de Nietzsche estivesse, de algum modo, certa. Lê-se Virgílio, lê-se Cervantes, lê-se Dostoiévski - tão separados estes em tempo e espaço, mudando a forma e o conteúdo tremendamente, mas parecendo tratar sempre do mesmo assunto, da mesma essência humana, ora sob um ponto de vista, ora sob outro. Bem, o que muda ao muito é a concepção metafísica de cada qual, fazendo total diferença na estória dos livros. Entretanto, ainda assim, os pontos d'essência que os agregam à chamada Literatura Universal não são nem um pouco em vão, tanto é que nós brasileiros os conseguimos entender, se não de todo, pelo menos um pouco, apesar do entrave da língua.
     A última questão que averiguo neste texto é uma opinião minha de por-fim e conclusiva que tenho a respeito tanto da Literatura quanto da Filosofia. Se a questão da natureza do homem é, como aduz Hannah Arendt, uma questão teológica, que somente pode ser divinamente revelada, o que são todas essas verdades soltas em borbulhas presentes nos livros literários? Estão eles de todo errados, sendo todos falácias? A minha especulação é que talvez estejam errados, se queres tu uma ideia-geral que a tudo congregue e abarque, mas que estão certos ao mesmo tempo, se queres tu verdades literaturas e ideias do mundo, que mais interpretações dos fatos me parecem do que uma dada Revelação. Pois se pergunta: um mesmo fato dado a nós pelos sentidos pode ser interpretado de duas maneiras totalmente opostas, e as duas sendo de todo certamente relevantes, muito à revelia de serem contraditórias entre si? A mim, penso que sim, é-se possível. Logo, por conseguinte, esse costume a nós imbuído de ficar com o pé atrás quando em lendo Dom Casmurro, por causa do narrador parcial, de repente, se nos torna um dogma! Porquanto quero propor-lhe as seguintes reflexões: se mesmo a Filosofia não consegue nunca achar um veredicto para as suas proposições acerca da Verdade do mundo, como poderia isto fazer a Literatura?, sobre o que fala a Filosofia, e sobre o que fala a Literatura, se a essência do ser humano e do mundo não soubermos nem pudermos saber?, por que carregamos as tintas em falando que o Realismo nos oferece o Real, em oposição aos outros estilos literários?, o materialismo ateísta proposto por Augusto dos Anjos, com o seu Deus-verme, seria uma essência do mundo, ou uma interpretação da essência do mundo?, quem está mais certo ou menos certo, G.H. com a sua crueza e morbidez pregados na visão, ou Riobaldo com o seu modo de todo jagunço de se olhar ao mundo?
     Todas estas perguntas me sugerem que, se no entanto esta essência é, talvez, inescrutável, inentendível, pelo menos seja um algo interpretável, um algo especulável. E ainda, em sendo o ser humano ávido por estas questões, seja ele quem for, preocupando-se com filosofia ou não, por tudo ele se revolve nisto, exatamente nisto, no Metafísico, e tudo ele especula, no e ao sem-fim. Porquanto, afinal, sem isso ele se desespera. Não sabe ele não especular. Por isso ele religioniza - por isso ele poetiza e filosofa. Note-se o escrito de Anton Tchekhov, do conto Uma história enfadonha:
     "Penso, fico muito tempo pensando, e não consigo inventar nada mais. E por mais que eu pense, onde quer que se espalhem os meus pensamentos, é evidente para mim que em meus desejos falta algo essencial, algo muito importante. No meu fraco pela ciência, no meu desejo de viver, neste ato de ficar sentado numa cama alheia e na ânsia de conhecer a mim mesmo, em todos os pensamentos, sentimentos e concepções, que eu formo a respeito de tudo, não existe algo geral, que una tudo isso num todo. Cada sentimento e cada pensamento vivem em mim isolados, e em todos os meus juízos sobre a ciência, o teatro, a literatura, os alunos, em todos os quadrinhos que desenha a minha imaginação, mesmo o analista mais hábil não encontrará o que se chama uma ideia geral, isto é, o deus do homem vivo. / E, se não existe isso, quer dizer que não existe nada."
     Numa palavra, escreve Ricardo Reis: Crer é errar. Não crer de nada serve.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A morte

     Algo como que um relâmpago infiltrado nas ondas divagas do sertão me tingiram naquele momento. Algo, digo - como se o sertão estivesse árido por demais - e como se uns insetos prorrompessem por ali, ervas-daninhando ao não-mais-cabo, ao fadário de morte putrescente, ao seco fim duma vida inteira, sem-adjetivos, sem-nada, vivida esta com toda a intensidade dum romântico possível. Uma vida inteira reduzida possivelmente ao pensar, aos livros, às letras. Valeu a pena? - nem nisso não penso - não! - para quê me serve disso pensar, num momento tão decisivo como esse? Não cabe pensar na vida quando se tem em vista de frente a morte. Pois quando se vive a vida, há-de-se alegrá-la e benzê-la em vivaldis, espermando esperma, sorrindo o sorrir, chorando o chorar, gracejando o poema da vida - nada mais que isso. Criança sendo - Deus abençõa. Mas quando em vista de morte se encontramos - cabe pensar na morte - só na morte - digo, pensar no impensável - porque sempre se pensa na morte pensando-se na vida - não-sabendo-se que com morte nada se pensa, e nem mesmo o ato de realizar pensamento vige neste entrementes. O que se dedilha portanto? Exatamente isso - nada se me veio na mente - digo, de tanto que se me veio, findou que nada se me veio - e só mesmo um sentir intenso e hórrido transbordava de dentre os meus dentes. Era a morte me comendo as vísceras, fazendo-me escarrar sangue-vômito, compulsóriamente, minha alma saindo de aos pouquinhos, como se tudo de inopino ocorrer não pudesse. Era um sentimento de medo. De medo da morte somente - a vida não mais importasse - livros e letras não mais importassem - ninguém não mais importasse - pois de que me vale as últimas palavras dizer em vistas de tão mísero fim? Possivelmente, estando eu mais conforme decente, diria somente refrão de refrão de Eclesiastes, aquilo mesmo que disse Locke em derradeiro: tudo na vida é vaidade, não mais que isso. Conclusão de vida, que de mais clichê não há. Mas nem nisso não quis falar, de nôjo que isto de grandiloquência me causa às vezes. E tenho nôjo eu de fato disso? Pois ainda. No que pensei? No que pensar? Ah, adivinha tu no que pensei - que mais vergonha me causa de tudo quanto em vida já tive de me enrubescer - pensei no fideputa do emplasto machadiano, e quanta desgraça em mente acumular não pude de saber que o Brás Cubas também era eu! Justo eu! Eu, eu, eu! - e olho ainda para ti, teus olhos mornos e pueris, a gentileza da graça em pessoa, seios tão belos medidos e avantajados, moreneza em tom, maneiras de lordezas, rostinho tão bonito, inteligente, encantamento de poetas, alvo frágil dos falos em meneios tão discretos - e olho para ti - e vejo muitas coisas, descritíveis ou não, mas quê isto importa?, que também detecto um Cubas em ti inculcado, e também um Karamázov, qual marca de nascença fosse. Pessimista sendo estou eu? Pode que seja. De ver a morte assim tão de perto e transpassá-la no duro e rigoroso faz a gente perder um pouco o otimismo.
     Este relâmpago fora procedido, então, por uma fina espada reluzente vinda dos céus - tronos de Zeus digladiando com Poseidon, ao fim de fazer Samsa escutar o divino por de dentro de seu quartículo anegrado de sangue branco, estilado como soro no chão, uma maçã o torturando nos ventres vértices - trovoadas de náuseas formando - em sua epifania G.H. blasfemando - mares incontinentes trespassando muralhas - palpitando o coração quintessente de mim em acelerado, quase que no átimo da quebra venosa-arterial. A aorta em quase nas suas últimas auroras. Pois nunca ao nunca-mais poderei eu participar desta vida novamente?, pensei. Fim de vida - e assim plec? Então é isto? Que, se fôr, isto seja, com a glória do Cujo - Amém. Ao que esta ideia me fora vindo devagarinho, de tanto em tanto pouquinho me detivendo em medo por mais medo, ali no embuste de se ver que só vinte anos se passaram - oh, juventude tão pouca! - para que mais não pudesse eu sorrir à vida. Valeu a pena?...
     Parecia que eu e meu corpo não se encontrassem, tal como se meu espírito se apartasse do meu âmbito corpóreo num repente. Tudo quanto minha alma fazia, meu corpo não acompanhava, e nem mesmo disso perto chegava. Eu e meu corpo sendo ambos alheios um ao outro. Coisa estranha: a dor dilacerante que tive de começo ali no meu órgão quando o corte se dera de través - aquilo que muito de insuportável trazia - tudo havia passado, dor acerba mais não havia - e estava eu de já delirando às avessas - o mundo fosse um lugar distante onde as pessoas se preocupavam com mesquinharias - o cotidiano não mais existisse - fosse só eu e a morte de banda agora abraçados, como se penetração houvesse entre nós dois, numa intimidade que não nunca eu tivesse tido em vida minha toda. Sangue anegrado saía de mim sem que eu uma mínima dor estivesse sentindo.
     Os mares todos da Terra trefegavam com aleivosia diante de mim, de minha situação danosa e nojenta, ridícula de pilhéria. Estaria eu com pena de mim naquele momento, por fim de fazer valer a minha grandeza, assim como fizera Poe em moldes byronianos no poema Alone?, assim também como fizera Sócrates em bebendo cicuta sob o afago do divino?, ou mesmo Jesus Cristo em cruz de todo estertorado? Não - para mim que aquela situação era tão néscia e estúpida que eu tive a capacidade de me rir de mim mesmo, ultrajando Poe, Sócrates e Cristo - todos comigo - numa mesma barca de riso e humor. A vida, por mim pensada naquele momento, parecia tão vazia e oca, tão alheia a mim mesmo, ainda mais de quando em morte próxima, que qualquer tentativa de sagrado e de alcandorado que por ali houvesse transfigurava-se em motejo de adolescentes malcriados. E isto diferença nenhuma me fazia, pouco se me dava aquilo no momento.
     Ao que eu comecei a escutar por vontade própria - que aquilo tudo fosse imaginação, loucura e intensidade minhas - a Ode à Alegria de Beethoven - os últimos momentos de minha vida sendo prazidos de escutar a parte minha favorita de toda a música clássica. Coisa de criança. De criança que sempre em mim houve. Uma felicidade por minutos finais, como que numa redenção, e por aí renasceu novamente em mim o sagrado, coisa de que mofa fazia eu segundos antes. Condição humana. Felicidade houve? Pode que seja - ou que não seja - mas o que se deu é o que se deu. Sabe-se lá o que se deu? Desejo único e de por-fim que tivera eu em quando em leito de morte, entanto, por mais engraçado que isto seja, que disto risada muita eu dou por de-dentro sempre, fora ouvir uma partezinha lúdica da Nona Sinfonia de Beethoven, simples e graciosa, e esquecer todo o emplasto, toda a minha vida, toda a minha ambição e vaidade, os meus irmãos, os meus pais, os meus amigos e namoradas, invejas-luxúrias-potências, idiotezas e mesquinharias, acrescentadas todas por aquelas duas notas tantãm-tantãm do quarto movimento, em após quando um silêncio súbito se dá pós marcha heróica divina, tão próprios de seu autor.
     Meus pais choraram de muito quando souberam da notícia, meus irmãos se entristeceram ainda mais com não mais me haver em casa, amigos de um ou dois confrangidos ficaram. O resto dos conhecidos nada ou pouco sentiram, como é o mais natural no transcorrer dos fatos. Passados um tempo - a dor de minha mãe e de meu pai foram a que mais tempo perduraram - pois que de tudo fizeram por mim - e eu quase que nada lhes sendo gratos com a minha pérfida morte. Mas, no entanto, uns anos a mais de colheita, e toda a minha história e a de minha família também viraram vapor e pó dos tempos de antanho. Uma vida inteira reduzida possivelmente ao pensar, aos livros e às letras - ao que dera em nada, em nada! A pátina dos anos encobrindo lentamente a pintura doirada de nossas vidas, até que o nada bruxuleia de espontâneo, e reponta ao todo de vez, em mor de dar espaço pra outras almas mais - vindouras, renascentes, celífluas - num eterno sem-fim perpétuo. E a vida sempre seguindo como dantes. No ritual. No normal. Até o fim. Valeu a pena?...